Nascemos e morávamos em uma fazenda, na então longínqua noroeste em uma cidade chamada Pongaí, no interior de São Paulo. Menininhos ainda, tínhamos, meu irmão e eu, um cavalo alazão chamado Estrêlo; era dócil e obediente e, de tão mansinho que era, permitia que o segurássemos pelo rabo e ia nos arrastando pelo areal…
Um dia, ao acordarmos, o encontramos deitado na grama, já nos estertores da morte de tão velho que estava. Começamos a chorar e meu pai não permitiu que o víssemos morrer.
Tempos depois, no início da década de 50, mudamos para São Paulo, onde meus pais se estabeleceram aqui no Brooklin/Petrópolis.
O tempo passou, mas a saudade do nosso cavalo não. Sempre comentávamos com os nossos amigos o alazão maravilhoso que tínhamos, e eles ficavam imaginando ter um igual.
Um belo dia eis que aparece o nosso amigo Juca em nosso quintal, com um pangaré banguela que ele dizia ter "achado no mato". Trouxe-o amarrado em uma corda. Tratamos, dando-lhe banho, água e milho. Nossos pais permitiram que ele ficasse alguns dias em nosso quintal e depois que fôssemos procurar o dono para devolvê-lo.
Assim o fizemos (já sabíamos de quem era) com dois montados no mesmo e o Juca puxando-o pela corda. Aí meu irmão falou: – Querem ver como fazíamos lá em Pongai? Segurou no rabo para que o Pangaré o arrastasse. De repente ele deu um coice e atingiu a boca de meu irmão, e por um milagre não acertou os dentes, somente o lábio inferior cuja cicatriz ele tem até hoje…
Meu irmão no hospital; os amigos desesperados e o Juca devolvendo o cavalo que era do Português Verdureiro, que agradeceu e lamentou o fato.
Mais tarde o Juca confessou que achava que tinha sido castigo, pois disse que não tinha achado o cavalo, mas "roubado"…
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