– “Vou-me embora para São Paulo” – decidiu.<br><br>Naquele lugar, com milhares de pessoas – que não eram sequer interessantes, diga-se de passagem -, ele não poderia mais ficar, afinal de contas, aquilo tudo tinha ficado tão pequeno.<br><br>Vinte anos de São Paulo se passaram, e, no auge de seus quarenta anos, convertera-se em uma, ou antes, em mais uma figura citadina, igual a outras milhares de figuras citadinas nas quais nos esbarramos e, por força das circunstâncias, somos obrigados a interagir cotidianamente no caos urbano.<br><br>Mas era ali, no meio da multidão de pessoas, do trânsito sem sentido a olhos alheios, as caras desconfiguradas pela velocidade com que passam, cruzam e irrompem do nada e para qualquer lugar, era ali que ele se sentia em seu lar.<br><br>Caminhando pela Avenida Paulista, solitário como todos os outros, em um dia desses comuns da cidade. Céu claro, com uma luz fria que o forçava a franzir o cenho, o que lhe emprestava um ar de contrariedade, ele olhava para os arranha-céus da metrópole, e, melancolicamente, questionava-se acerca de suas escolhas nesses últimos vinte anos.<br><br>Viera ainda menino, supostamente atrás de uma profissão. Em meio a muitas bagunças e descobertas, tornou-se arquiteto formado em boa instituição universitária. Vangloriava-se de ter tido muitos amantes em sua vida, o que não mudava muita coisa, pois, por onde passara os desencontros foram mais frequentes do que os encontros. Durante anos trabalhara em uma boa instituição, ganhando bom dinheiro, o que lhe permitira morar bem e usufruir os frugais prazeres que uma megalópole como São Paulo poderia conceder. <br><br>Diminuiu o passo debaixo da sombra projetada pelo prédio da FIESP, no Trianon, quase que de soslaio mirou para a faixa que indicava a peça de teatro que começaria em uma hora. Algo sobre Shakespeare, ou alguma de suas peças. Não valia à pena encarar uma hora de fila para isso, afinal de contas, não há no mundo grupo de teatro que seja capaz de interpretar Shakespeare com a dignidade que ele merece, pensou ele; e retomou o passo apressado, comum aos habitantes da metrópole.<br><br>Rapidamente voltou a suas elucubrações, tentando datar o início da situação em que se encontrava. Há cerca de um ano, sentindo-se tão preso como há vinte anos, decidira investir em outra área e iniciou uma especialização em sociologia. Encantou-se pelo anarquismo, não tanto quanto, é verdade, na mesma época, apaixonou-se.<br><br>Não conseguiu remontar com exatidão a ordem de sucessão dos acontecimentos desde então. O redemoinho de imagens que lhe vinham à cabeça, e de emoções que lhe estouravam o peito, não lhe permitiram saber se a paixão veio antes de ele deixar o emprego, ou vice-versa. Ou se foi o investimento que fez na pequenina cidade de onde saíra que o pusera na bancarrota, ou se esta se instaurou quando fora abandonado pela pessoa que julgara, pela primeira vez, amar.<br><br>Tinha certeza apenas de uma coisa, toda aquela situação o estava desgastando mais do que podia suportar. Há seis meses estava pedindo favores a pessoas que conhecera na cidade, para poder dormir. Um bico aqui, outro acolá pagavam seu cigarro e transporte. <br><br>Pensando nisso acendeu um cigarro, já entrando na Rua da Consolação, sentido centro. Resolveu pegar um ônibus para seu destino, mesmo sem saber qual era. No lado da rua oposto ao cemitério, esperando o ônibus no ponto, mirava as fúnebres esculturas das lápides que se mostravam ao seu atento expectador por sobre o alto muro. Os crucifixos, as figuras angelicais e as abóbadas e torres dos jazigos mais imponentes se misturavam à fumaça de seu cigarro, deformando a imagem conhecida da morte.<br><br>Sorte que o ônibus parou por alguém o ter requisitado. Sem saber sequer qual era o destino do carro, entrou, pagou a passagem, e, percebendo que as poucas pessoas que ali se encontravam tinham se sentado na parte dianteira do veículo, acomodou-se no penúltimo banco. As imagens se sucediam rapidamente, cemitério, tribunal, faculdade… E o ônibus parou. Neste instante ele fecha os olhos, reclina a cabeça no encosto do banco, e aconchega-se no colo da fantasia.<br><br>Foi subitamente arrancado de onde estava pelo carinho que um dedo lhe fazia na cabeça. Sem olhar para trás, a única coisa que percebera foi que o dedo era de um homem que, a julgar pela aparência, tinha a idade próxima à sua. Vagando sem sentido, perdido na solidão (plena de estranhos ao redor), situação que a metrópole o proporcionava, ele fechou novamente os olhos, e se entregou ao carinho daquele estranho que, no auge do anonimato e desconhecimento que uniam a ambos, compreendeu sua angústia, e o acalentou.<br><br><br>E-mail: [email protected]