Quando o carteiro chegou e o meu nome gritou com uma carta na mão, nem sei como pude chegar ao portão. Vendo o envelope bonito, no seu subscrito eu reconheci a mesma caligrafia, que me disse um dia estou farto de ti. Ante tão estranha mensagem nem tive coragem, porque na incerteza eu meditava e dizia:
– Será de alegria, será de tristeza. Quanta verdade tristonha ou mentira risonha uma carta nos traz…. O carteiro ainda subsiste, mas e a carta? Essa tem os dias contados. As crianças e jovens dos dias de hoje não sabem o que é a ansiedade da espera de uma carta, a alegria da sua chegada e as boas ou más notícias que elas podem trazer e levar.
Os amantes trocavam juras de amor e, muitos casais hoje, em suas bodas de ouro, abrem pacotes de cartas amareladas pelo tempo, amarradas com fitas coloridas e relembram como foram belas as suas juras de amor. Esta correspondência entre os amantes levava também cartões com lindos corações de cetim cor de rosa e juras de amor escritas com purpurina.
Outros traziam figuras de pompinhas carregando pequenas mensagens no bico e tudo o mais que a imaginação e a tecnologia da época podiam concretizar. Os pais aguardavam ansiosos as cartas dos filhos que saíam de suas cidades para estudar na Capital e moravam em pensões que abrigavam muitos estudantes. Essa ansiedade era agravada pela demora e lentidão dos serviços dos correios.
Entre idas e vindas, escrita e resposta, havia um período de quase 20 dias, 10 para ir e outros 10 para a volta. E as cartas do exterior então? Levavam muito mais tempo. Por isso mesmo os carteiros tinham muito prestígio, eram bem tratados pela população e recebiam bons presentes no Natal. Eram adulados com o objetivo de que entregassem rapidamente a correspondência e não deixassem nenhuma se perder.
Os carteiros sabiam os nomes das pessoas de cada casa onde entregavam a correspondência. Por isso Isaurinha canta em sua música Mensagem: "Quando o carteiro chegou e o meu gritou com uma carta na mão…". Hoje, os pobres carteiros precisam correr de cachorro bravo e passam por muitas agruras para fazer o seu trabalho. Os serviços de correio atualmente têm como “único” objetivo entregar correspondências como talões de cheque, extratos bancários, cartões de crédito etc.
Este ritual era agravado pela falta de telefones. Poucas famílias os possuíam. Eram muito difíceis e raros e para tê-los pagavam-se preços astronômicos. A posse de suas linhas era incluída nos inventários como bens a serem herdados. Eles eram objetos de desavenças e disputas entre herdeiros e casais que se separavam. Se uma ligação local já era difícil imaginem então uma ligação interurbana.
Pedia-se a ligação para uma telefonista e aguardava-se praticamente o dia inteiro para fosse completada. Havia muitos ruídos e interferências, e gritava-se tanto para ser ouvido que quase se podia dispensar o telefone. Até o fim da vida, meus pais falavam muito alto ao telefone, como se ainda estivessem nos velhos tempos da comunicação dificultosa.
Havia os telegramas, que sempre traziam apreensão quando chegada, já que eram muito usados para dar as más notícias, quase sempre a da morte de algum parente. Eram usados também para felicitações, principalmente de casamento. Sempre caros, cobrados por palavra. Por isso eliminavam-se os pontos, as vírgulas e abreviavam-se as palavras.
Ia-se ao posto do Correio, preenchia-se um formulário com a mensagem desejada, que posteriormente era transmitida usando-se o Código Morse, naqueles aparelhinhos que emitiam os sinais: bip, bip bip, bip bip bip. Escrevia-se o mínimo possível. A mensagem decodificada era escrita e colada em uma folha maior para ser encaminhada ao destinatário. Era comum se ver esses telégrafos nas estações de trem.
Tenho guardadas as cartas que troquei com meu noivo, hoje marido, nos idos de 1963, quando de sua estada de oito meses no Chile, enviado para um curso através da Universidade de São Paulo.
Existem aquelas em que trocávamos informações sobre nosso cotidiano e nossas famílias e outras em que brigávamos muito. São engraçadas porque brigávamos por carta e, devido à demora que se dava entre as idas e vindas da correspondência. Muitas vezes, quando o outro já tinha resolvido parar de brigar e enviava uma carta terna e amorosa, ainda não tinha chegado as suas mãos a resposta à briga iniciada. Então, era um desencontro só e começava tudo de novo, principalmente de minha parte, que sempre tive o pavio curto.
Quando meu filho resolveu ir para a Europa, mais especificamente à Inglaterra, em busca de alternativas para sua vida, já possuíamos telefone, mas por ficar muito caro usávamos pouco. Nossa comunicação se dava mais por cartas. Meu Deus, quanta ansiedade e que alegria quando o carteiro nos entregava um envelope com as cores da Inglaterra. Líamos e relíamos as cartas, procurando reafirmar que tudo estava bem mesmo e procurávamos responder imediatamente, mandar-lhe postais, fotos e tudo o que pudesse atenuar a sua solidão em terra estranha.
Hoje ele vive na Alemanha e nos comunicamos sempre que desejamos, via Skip e usando a Web Can podemos nos ver, matando assim um pouco da saudade. Só não temos ainda uma tecnologia que nos permita trocar aquele abraço tão necessário. Quantas mudanças em tão pouco tempo. Haja fôlego para correr atrás delas. A troca de correspondência por e-mail é imediata e por isso dispensamos o carteiro. Sem nenhum charme, diga-se de passagem.
E as coleções de selo e de envelopes? Também tem os seus dias contados? Serão eles objetos de Museu? Que festa que era a troca de selos e envelopes entre as pessoas. Quantos selos bonitos e artísticos! Alguns, por sua raridade, de grande valor monetário.
Existem publicações de livros com a troca de correspondência entre artistas, intelectuais, políticos. Cartas arquivadas ou expostas em museus e em bibliotecas públicas e de universidades, consideradas documentos de valor histórico.
Será que os e-mails também terão este poder de tornar-se parte da história, já que são “deletados” com tanta facilidade?
“… Assim pensando peguei, tua carta e rasguei para não sofrer mais".
Minha homenagem à grande estrela paulistana, Isaurinha Garcia, nascida em 26 de fevereiro de 1919, no bairro do Brás, em São Paulo. Era sobrinha do renomado artista plástico Pancetti. Foi alcunhada de "Personalíssima" porque se manteve fiel ao gênero musical que a consagrou e ao sotaque paulistano adquirido no Brás. Projetou-se na Rádio Record e em programas de calouros. Gravou seu primeiro disco em 1941. Tem gravados 60 discos de 78rpm e dez LPs. Mensagem, letra que utilizei nesta crônica, talvez tenha sido o seu maior sucesso. Foi composta em 1946 por Aldo Cabral e Cícero Nunes.
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