Anos 60, os bondes já não têm ponto terminal na Praça das Bandeiras, e já não sobem a Rua Santo Antonio.
No final da Rua Santo Antonio, onde hoje está localizado um estacionamento enorme e subterrâneo da prefeitura havia sido construído um teatro.
O Teatro de Alumínio tinha sido feito construído como se fosse um galpão de estrutura metálica tão comum nos dias de hoje.
De forma abobadada, cobertura em folhas de alumínio, tinha uma figura externa bastante simplória, mas, por dentro, era um teatro com todas as dependências necessárias e com boa acústica.
Muitos espetáculos foram ali encenados e a vários eu assisti.
Como fato marcante na minha memória, está uma temporada ali realizada pela companhia do comediante Costinha.
O espetáculo, como a maioria do comediante de quem eu era fã, era uma revista com números musicais e pequenos esquetes. Os números musicais eram defendidos por um grande e inesquecível amigo Paulo Domingues, que muito cedo passou para o andar de cima.
Por ser fã de Costinha e ter o Mingo no elenco, eu ia a quase todas as sessões.
Eram tempos negros, a cesura atuava com veemência infatigável, o espetáculo do Costinha era bastante visado pelos “guardiões da morar e da família” e ele sabia disso. Na platéia, na primeira fila, a primeira cadeira da esquerda tinha cor diferente das demais, era de cor vermelha e ficava reservada para acomodar o traseiro de um censor de plantão.
Costinha, antes do início do espetáculo, olhava por um furo que normalmente existe no pano de boca dos teatros, para se certificar que o “amigo censor” já havia chegado. Esse gesto era feito diversas vezes a cada noite antes do pano se abrir, pois a presença ou não do censor é que iria medir o grau das bobagens e críticas que seriam juntadas como “cacos” na seqüência da revista.
Lembro-me uma noite em que depois do terceiro sinal e antes da abertura das cortinas, Costinha olhou pelo furo e não vendo a cadeira ocupada, colocou de imediato, a cabeça para fora das cortinas e deu uma abertura diferente ao espetáculo.
Falou para platéia se preparar, para quem tivesse bexiga solta colocar fraldas, para quem fosse recatado sair e trocar o bilhete para um dia mais tranqüilo, para quem fosse deficiente da audição se aproximar mais, para as solteironas buscarem assentos mais distanciados que evitariam constrangimentos maiores, tudo isso por que o “FILHO DA P…… do censor tinha ido dar o C… e não estava presente para levá-lo em cana”.
Eu que tinha resolvido assistir o espetáculo das coxias naquela noite, tive mesmo de por diversas vezes de trançar as pernas para não me molhar todo.
Hoje o Teatro de Alumínio está vivo apenas na memória de alguns mais idosos. Os jovens dificilmente saberão o que foi este teatro.
É uma pena!