Memórias: Parque Infantil Dom Pedro II. B

Naquele dia, caminhamos de volta para a residência, cumprimos a recomendação de ir direto para casa…

A distância entre a moradia dessa minha prima ao parque infantil, uns cem metros. Residência encostada a onde se situa hoje, abandonada, a Casa das Retortas, no gasômetro.

Rua Pires Ramos, de diversos moradores inesquecíveis: Os toureiros, cuja mãe, no dialeto "portunhol", trocava o "V" pelo "B": "Bilma, Barte, Birson, bamo armoçar…". Rua de diversos erros e recordações, umas tristes outras alegres…

Depois dessa primeira fase em dois períodos, no parque, iniciei a frequentar somente no período vespertino, pois havia iniciado o curso primário de manhã, aos sete anos de idade…

Aos sete ingressei no Grupo Escolar Carlos Pereira – Rua Itapira – Mooca – São Paulo/SP -, que mais tarde foi agregado ao Ginásio Estadual Antonio Firmino de Proença, onde estudou o governador José Serra (eu poderia ter seguido a carreira política).

Nesse período aprendi um pouco a comandar ou coordenar os outros e o compromisso pelo qual as pessoas se obrigam umas às outras.

A Cartilha Sodré e a primeira professora, a que nunca se esquece, foram as primeiras companheiras.

Ao meio dia, no Parque Infantil, responsabilizaram-me a acompanhar as crianças, na maioria pardas e negras, filhos das mesmas senhoras operárias da Metalúrgica Matarazzo, até a Escola Estadual Romão Puigari.

A primeira travessia, da Rua da Figueira, era o guarda civil quem fazia, com sua farda azul marinho e o chapéu branco, estilo caçador, nos ordenava, todo solícito e com sorriso nos lábios, a atravessar, quando não, assoviando, para que passássemos, parando os poucos veículos da época. Chamava-nos pelo nome, e nós a ele, antecedendo o tratamento respeitoso "senhor".

Eu comandava a todos naquela enorme fila indiana, uns quarenta garotos, até a Avenida Rangel Pestana, no Brás, logo após a Rua Piratininga, deixando-os até que adentrasse na Escola Estadual Romão Puigari. Lá ficavam estudando até as 17h00, quando suas mães, saindo do trabalho das fábricas, os vinham apanhar.

Os tempos eram outros, são passagens da vida escolar que relembramos. Até pouco tempo, por ironia do destino, nos fundos dessa escola ficavam instalações do SOS Crianças, que abriga menores infratores e carentes da região.

Naquele tempo, a travessia só era permitida para os alunos se fosse pelo túnel. Esse túnel tinha uma entrada junto à calçada da Rua Monteiro (loja de casimiras) e a saída em frente ao portão da escola. Esse colégio ficava e fica no bairro do Brás (a sua fachada ainda ostenta o seu nome), entre as ruas Martin Bouchard e Piratininga.

No trecho da Rua Visconde de Parnaíba, que ia da Rua Carneiro Leão até a Rua Caetano Pinto, muitas residências e estabelecimentos de comércio existiam. Na Caetano Pinto, minha mãe residiu quando solteira (nessa rua conheceu meu pai) e comentava que havia vivenciado a revolução de 1924. A cidade presenciou dias de bombardeio, tiros de metralhadoras, barricadas e saques. Sempre quando qualquer assunto referente a esse movimento político surgisse, comentava: – na residência próxima a sua, um sobrado fora derrubado. Uma granada atravessara o telhado e havia feito um enorme rombo, caindo dentro da balde com água, o qual a vizinha usava para lavar o assoalho.

Hoje se sabe que revolta demorou vinte e três dias e deixou como saldos, na sua maioria civis, 503 mortos 4846 feridos. Os bairros Braz e Mooca foram os primeiros a sofrer as consequências cruéis dessa guerra: foram atingidos por um canhoneiro tão pesado que as ruas ficaram repletas de cadáveres. Os coveiros não davam conta de cavar sepulturas para enterrar todos os corpos, o que levou muitas famílias a enterrar seus mortos nos quintais de suas próprias casas.

Havia a venda (empório), comandado da minha tia Josefa e tio Lobato (quase toda a semana ia com ele até o Mercado Municipal e Rua Santa Rosa, adquirir produtos para abastecer o empório). Os fregueses, vizinhos na maioria, compravam o necessário, e registrado nas famosíssimas cadernetas, resgatados no final do mês. Existia a confiança e honestidade.

Havia o Chalé do Jogo de Bicho, todo pintado de verde, até ser proibido por decreto do Governador Garcez (o governo federal já o havia proibido em 1946). Em frente à Churraria do "Seu Antonio e Dona Adelina". Na esquina na Carneiro Leão, a farmácia da Dona Lídia. Todos móveis de madeira e vidros, a pequena porta-móvel, guardando a entrada de aplicar injeções, onde sentíamos o odor do éter e álcool utilizado na farmácia. Nas madrugadas, a farmacêutica, com seu estojo de inox, vestida com seu guarda pó branco, percorria as casas a aplicar injeções nos vizinhos doentes. A solidariedade na saúde estava presente.

A Destilaria, do velho Cadorna, diversos tonéis de bebidas. Entravamos agachados a beber os líquidos na própria torneira: vermute, sambuca, anisete. Aproveitávamos a ausência do velho. Estava dentro de casa a se distrair com alguma mulata que terminara o turno na Metalúrgica Matarazzo e não havia ninguém a recebê-la em casa.

Havia a escolinha da Dona Yaya (Vicentina Ribeiro da Luz) – uma espécie de Jardim de Infância da época. A professora era filha do velho (apelidado de papa-capim), assíduo frequentador da igreja de São Gennaro, senhorio de diversos cortiços do bairro. Cobrava os alugueis com extrema voracidade, e todos os domingos, após a missa, contribuía com extrema generosidade à igreja, a adquirir as indulgências, e obter a clemência do padre.

O Bar do Cardoso (esquina com Rua Mem de Sá) tendo como sócio Senhor Álvaro, um verdadeiro alquimista em fabricar passarela, cuja receita perdeu-se nos bairro, com o tempo. O bar lotava, quase sempre com os mesmos fregueses, às 12h00 e às 18h00.

No bairro havia outras diversões e lazer. Os cinemas: o Cine Ideal, na Rua Piratininga. O Cine Glória, na Rua do Gasômetro, todo de cartazes de propaganda dos estabelecimentos da região estampados na cortina – que tapava a tela, e que só se abria após o som do gongo. Poltronas estofadas. Na ante-sala uma distinta bomboniere. Algumas seções especiais, um pianista a executar concertos antes do início. O tio do Serginho Cosme (ainda amigo) é quem tocava o piano.

Ia-se muito ao Cine Piratininga, tido como o maior cinema do Brasil (2.000 lugares).

Aos domingos à noite, após as vitórias do Corinthians, comprávamos a Gazeta Esportiva, na porta. Quando o Timão vencia o Palmeiras, Zé Luiz, meu primo, adentrava em sua casa exibindo a manchete do jornal. O pai, o velho Caruso, palmeirense verde, corria ao seu encalço. O menino trancava-se no banheiro e ficava horas a aguardar que os ânimos serenassem, e a mãe conseguisse o salvo-conduto.

Nas festas de época, a alegria e a diversão eram contagiantes: comemoravam-se as festas de Santo Antonio, São João e São Pedro, e todos participavam com diversas guloseimas e pinhão cozido. Naquela época era muito frio no mês de junho, então se acendia a fogueira na rua onde se assavam batatas doces. Pulávamos aquela pilha de lenha acesa. O céu ficava pontilhado de luzes que pareciam estrelas. Pingos de breus vindos das tochas dos balões que soltavam.

As tochas eram feitas de sacos de estopa, amarradas através do arame com restos de velas dentro. Os balões tinham os formatos de almofada, mexerica, caixão e o tradicional pião.

Havia sempre as recomendações das "mammas italianas" e "las madres espanholas":
– Não se aproximem muito do calor das fogueiras, para evitarem mijar nas camas.

Nos cortiços, os varais das casas ficavam repletos de roupas, quarando ao sol, firmados pelos bambus. Um carnaval de cores. Ah!… o carnaval de outrora! Íamos a Rangel Pestana. Ficávamos assistindo, e pulando, na esquina da Caetano Pinto. Sem fantasia, com um pouco de rouge da irmã nas faces e pintas pretas feitas com a cabeça do fósforo gasta e umedecida. Um jato de lança perfume para gelar as costas…

E nisso passou a alegria, passou as brincadeiras, porque o tempo passa. Passa a tristeza também. Passa a adolescência, imaturidade também passa. A sobriedade passa. Passam as dores, os amores. Passam as horas, os minutos, os segundos, os desejos, os sonhos. Tudo passa. Eu passo, tu passas, ele passa, e nós passamos… Passa a lida. Passa a vida.

Anotações (pesquisas) de um Paulistano do Brás:

Ainda há a Vila da Dona Yaya (Vicentina Ribeiro da Luz), na Rua Visconde de Parnaíba, nº 739 (antiga Vila dos Cavalos – duas cabeças do animal no portão), mesma rua onde ficava a escolinha (nº 594) atual.

Vicentina Ribeiro da Luz (Dona Yaya) nasceu em 1º de maio de 1896, em São Paulo, e faleceu em 6 de janeiro de 1978, também em São Paulo. Era filha do engenheiro Cristiano Carneiro Ribeiro da Luz e de Maria Vicentina de Abreu Ribeiro Luz.

Vicentina iniciou seus estudos em São Paulo. Em virtude do trabalho de seu pai, a família mudou-se para o Rio de Janeiro. Em 1908, todos retornaram a São Paulo definitivamente. Na capital, ela viveu até o fim da vida.

Participava da sociedade paulista da época. Jogava tênis no Clube Paulistano, tendo sido várias vezes campeã. Gostava de pintura, xilografia, bordado, piano. Era excelente contralto.

Em 1928, acompanhando seu pai em visita a propriedades situadas no bairro do Brás, eminentemente fabril, na época entrou em contato com o meio operário. Viu e sentiu o problema das crianças pelas ruas, cujos pais saíam cedo para o trabalho. Isso a motivou para o início de um trabalho de visitas a famílias pobres daquela região. Assim Dona Yayá, como era conhecida, jovem ainda, deixa a vida em sociedade para dedicar-se integralmente ao trabalho de atendimento aos pobres.

Sentindo-se ainda sem experiência para um trabalho mais abrangente, mas sempre incentivada por seu pai, participava de associações como a Liga das Senhoras Católicas e a Associação Cívica Feminina.

Em 1932, por ocasião da Revolução Constitucionalista, foi diretora do posto de assistência à população civil da Zona Leste. No mesmo ano, consciente dos problemas da mulher-mãe e operária, que deixa seus filhos sozinhos para poder trabalhar, dona Yayá e algumas professoras alugaram uma casa no Brás. Era o início do Centro de Assistência Social Brás-Mooca, instituição que se dedicou à proteção da mulher que trabalhava fora do lar, assim como de suas crianças, prestando assistência alimentar, educacional, médica e sanitária.

Durante a Primeira Guerra Mundial, organizou um serviço de assistência aos convocados, instalado no Posto de Abastecimento da Imigração, no Brás.

Em 1949, a pedido do juiz de menores, formou um internato na Rua João Caetano, no prédio de uma antiga escola alemã, para meninos de três a cinco anos, chegando a ter cinquenta internos, que foram cuidados e acompanhados até os doze anos, sendo então encaminhados a outras organizações. A esta obra dedicou toda sua vida. Foi pioneira do Serviço Social em São Paulo. Possuía uma visão profunda e crítica dos problemas sociais. Fundou diversas escolas primárias e creches junto às igrejas.

A assistente social Vicentina Ribeiro da Luz, por outro lado, criticou as casinhas com jardim feito para os pobres em subúrbios distantes, alegando que eram construídas com carinho e "muito gosto artístico", mas que se mostravam inadequadas para aquelas famílias onde as mães trabalham fora e precisam do auxílio de vizinhos. Considerava que os prédios de apartamentos – junto às fábricas e a parques infantis – eram a solução habitacional ideal para o trabalhador urbano.

A proximidade da fábrica evitaria a necessidade de condução, o parque infantil substituiria o quintal, as redes de sociabilidade e auto-ajuda entre vizinhos – fundamentais à sobrevivência em cortiços e porões – seriam recuperadas (LUZ, 1943, 137-143).

A assistente social Vicentina Ribeiro da Luz (Dona Yaya) no artigo "Habitação Ideal ao Trabalhador Manual: como resolver o problema dos porões e cortiços dos bairros do Braz e da Mooca", publicado na Revista do Arquivo Municipal, em 1943, considerava que "os prédios de apartamentos (…) eram a solução ideal para o trabalhador urbano, (pois) a proximidade da fábrica evitaria a necessidade de condução, o parque infantil substituiria o quintal, as redes de sociabilidade e auto-ajuda entre vizinhos – fundamentais à sobrevivência em cortiços e porões – seriam recuperadas" (Luz, 1943, p. 140).

Mas, ao mesmo tempo em que floresciam as campanhas a favor do edifício vertical, a "contra-campanha" também se armava, divulgando, sempre que possível, os efeitos maléficos atribuídos à habitação coletiva: barulho dos vizinhos, convivência forçada com elementos estranhos à família, promiscuidade proporcionada pelas janelas.

"O arranha-céu é o autor da catástrofe. É o trapiche da mercadoria humana (…). Nele a luz é escassa, a temperatura é de ar frigorífico, os compartimentos estanques. Não há como alojar em tais baiúcas mais de três pessoas (…)". Tudo minúsculo, reduzido, porque o terreno é caro, e porque é mister utilizar as áreas sem desperdício de um milímetro. E como estas teratologias arquitetônicas se multiplicam ao infinito, o animal humano que não prescinde do auxílio da natureza vai procurar em outra parte o que lhe falta no domicílio (Maul, 1936, citado).

LUZ, Vicentina Ribeiro da. Habitação ideal ao trabalhador manual. Como resolver o problema dos porões e cortiços dos bairros do Braz e da Mooca. – Revista do Arquivo Municipal, São Paulo, v. 89, p. 137-143.

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