Memórias Noctívagas

Estamos em Maio de 1977, no dia 6 nascia a terceira das minhas filhas, a Rossana (com dois esses como ela fazia questão de avisar).

Alegria geral e, como era de bom tom, o pai todo saltitante, resolve comemorar a novidade marcando uma noitada festiva. Convidados para a comemoração o Wladimir (Mimio) na época noivo de uma prima da minha esposa e o Eloi primo de minha esposa e futuro cunhado do Mimio.

O convite ao Eloi se prendia a dois motivos significantes, um era o quanto eu gostava e gosto ainda desse cara, e o outro motivo era a sua passagem para a maioridade.
Convites aceitos combinamos que o Eloi sairia comigo do meu escritório na Avenida Paulista, iríamos até minha residência, na época no Sumarezinho, de onde, depois de um banho, sairíamos para encontrar o Mimio que, enquanto isso noivava lá em Moema, e então iniciaríamos a peregrinação noturna.

Na ida para minha casa, meu velho fusca tem uma pane ali na Rua Heitor Penteado, verificada a ocorrência conseguimos ir à velocidade de tartaruga até minha casa. Não seria uma pequena pane automobilística que iria atrapalhar nossa noitada.

Banho tomado, olho para meu acompanhante e percebo que ele está bastante ansioso pela continuidade da aventura. Resolvo, vamos sair sem o carro.

No táxi digo ao motorista que desejamos ir até a Rua Xavier de Toledo. Descemos em frente ao Mappin, contornamos o Teatro Municipal, entramos na Rua 24 de Maio e nos dirigimos para a Galeria que ficava na esquina da 24 de Maio e a D. José de Barros.

Ali chegando, mostro para o Eloi qual seria nossa primeira parada, o bar dançante Korvette que ficava no subsolo dessa Galeria. Ele se estica todo pensando já em adentrar ambiente, mas eu jogo água na sua fervura. Digo que se acalme, pois teríamos que esperar o Mimio e, já que ele ainda não havia chegado convido-o para degustar um Churrasqueto, ele aceitas meio desencantado, ainda mais quando lhe confio que sua irmã, ciumenta de fazer bico, era capaz de estragar nossa noitada evitando que o Mimio viesse se encontrar conosco, o coitado já suava frio temendo a decepção.

Quase 23:00 horas e o Mimio não chegava, o desespero do estreante cada vez era mais visível. Resolvo, então, por mais lenha na fogueira e lhe digo quase que confidencialmente, que iríamos descer um pouco para ele assuntar o ambiente e depois sairíamos para continuar esperando seu cunhadinho medroso (para mim, a demora não preocupava, pois tinha certeza de que o noivinho iria cortar um riscado para sair cedo da casa da noiva). Descemos as escadas que levavam ao ambiente festivo e esfumaçante do bar.

Eu, arroz de festa daqueles ambientes, logo que apareci fui cumprimentado pelas meninas bailarinas, algumas delas lindíssimas, e isso provocou um pouco mais nosso debutante. Quando ele pensou que iríamos sentar e tomar algo, eu disse, vamos lá fora ver se o Mimio chegou.

Subimos e ele, cada vez mais aflito, pergunta o que aconteceria se o cunhado não viesse. Muito circunspeto, respondo que naquela hipótese a noitada deveria ser abortada. A cara do Eloi quase me fez arrebentar numa estrondosa gargalhada, refreei meus instintos e continuei a incitar os ânimos dizendo que homem ainda solteiro que obedecia a noiva, depois de casado viraria um verdadeiro capacho.

Às 23:30 horas, chega o tão esperado terceiro participante o semblante do novato desanuvia e começamos a escalada noturna. O Kadette é o primeiro a ser visitado, quando o ambiente começa a amornar resolvemos fazer uma ronda pela boca do luxo, vários inferninhos são visitados, varias "meninas" são convocadas a acarinhar ou beijar o estreante que, nessa altura dos acontecimentos está bastante mais alegrinho.

Estávamos num inferninho na Rua Marques de Itu e, desejando mudar de ambiente, proponho uma escapada ao Som de Cristal já que estamos numa 4ª feira e o baile do Som deve estar comendo solto. Proposta aceita nos encaminhamos para o Som, todo o ritual que acontece desde a minha chegada até nos sentarmos à mesa que era minha por direito de posse há muito tempo faz o queixo de o meu pupilo cair de vez.

Fica admirado com o atendimento dos garçons, a demonstração de amizade dos músicos e dos freqüentadores.

A noitada terminou ali, depois de muitas cervejas e gargalhadas. Foi uma noite inesquecível e, ainda hoje a relembro com carinho.