Início dos anos 70, Renata tinha três anos e uma bronquite assustadora. Os médicos garantiam que era passageira, iria melhorar com o passar dos anos e que antes de sair da fase infanto-juvenil ela estaria livre do terrível e angustiante malefício. Um dia confirmei que eles realmente falavam a verdade.
Bem, não é sobre a capacidade dos médicos daquele tempo o texto que pretendo desenvolver neste espaço. Na verdade vou comentar mais uma das minhas audaciosas aventuras motorizadas.
Já contei que nos primeiros anos de proprietário de um fusca 1950, meu primeiro carrinho, eu me aventurei bastante, rodando pela São Paulo sem ser habilitado oficialmente.
Enquanto não fui portador da Carteira de Habilitação, eu não tive qualquer acidente, mas passei grandes apuros enfrentando comandos e blitz noturnas que, por sorte ou proteção dos santos, nunca me causaram qualquer tipo de multas ou dissabor.
Nessa época eu já havia saído do Bixiga e estava morando na Vila Ipojuca e trabalhava na Avenida Paulista.
Saía cedo de casa para conseguir lugar e estacionar o carro em frente ao prédio em que eu trabalhava (é isso mesmo, a Avenida Paulista já permitiu que se estacionasse os carros no meio-fio, principalmente no quarteirão antes da Rua da Consolação, onde já tinha sido construída a passagem de nível para ligar a Avenida Paulista com a Avenida Dr. Arnaldo).
Uma noite, quando já estávamos todos deitados (a Renata dormia no seu berço no mesmo quarto que a gente), a bandida da bronquite atacou novamente. Foi um ataque tão forte que levantamos os dois para providenciar recursos e amenizar a tosse e respiração da pequerrucha. Toca a passar o Vick-vaporube, colocar vasilha com água fervente para umidificar o ambiente, mas nada adiantava, o ataque da malvada era muito forte. Então, não pensei duas vezes: nos vestimos rapidamente, agasalhamos a Tatinha, entramos no charmoso fusca/50 e seguimos para o Pronto Socorro.
O trajeto era fácil e rápido, pensei com meus botões. Entraríamos na Rua Cerro Corá, passaríamos em frente ao Cemitério da Lapa, entraríamos na Rua Queiroz Filho e já estaríamos no Pronto Socorro Municipal.
Foi o que fiz. A pressa e a aflição de socorrer minha filha eram tanta que nem prestei atenção na blitz que estava instalada no início da Queiroz Filho, e vazei o comando. Segui em frente até poder fazer o retorno para acessar a entrada do PS e nem me dei conta de uma viatura da polícia que vinha ao meu encalço com armas engatilhadas.
Estacionei o carro na vaga do OS, e quando ajudava a Cida sair com a menina no colo, fui abordado pelos policiais, que me deram voz de prisão. Assustado, não sabia o porquê da abordagem. Indagado do motivo que me havia levado a furar o bloqueio, informei que estava preocupado em prestar socorro a minha filha que estava atacada por uma forte crise de bronquite.
A Cida, sem nada falar, permanecia ao meu lado com a Renata no colo. O policial percebeu o inusitado da situação, tratou de imediatamente encaminhar a Cida com a menina para o pronto atendimento, depois se aproximou de mim, desculpou-se pelo susto que nos havia causado, chamou seus subordinados e bateu em retirada sem nem, ao menos, me solicitar o documento de habilitação (que eu não tinha).
Mais uma vez, a sorte, ou os meus protetores, haviam me livrado de um problema com as autoridades do trânsito. Mesmo assim, ainda demorei um bocado de tempo para me habilitar.
Plagiando uma antiga novela: Coisas de Miguel!!!
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