Fecho os olhos e relembro das minhas “façanhas” atrás do volante daquele meu fusquinha 1950 (importado).
Era um carro resistente, só me deixava na rua por falta de combustível, como era econômico eu me esquecia de abastecê-lo e não tendo os recursos da modernidade, não tinha também o mostrador de combustível. Somente tempos depois fui descobrir que ele tinha um tanquinho reserva para essas horas de aperto, e que era acionado com o deslocamento de uma chaveta ao lado da alavanca do câmbio. Esse recurso permitia que eu ainda rodasse uns 20 quilômetros, daí nunca mais fiquei na mão.
Uma das poucas vezes que o fusquinha me deu problema na rua foi durante uma das minhas ousadias, que por sinal, será o pano de fundo desta memória.
Eu havia gostado de dirigir sem habilitação de motorista (razão de muitas brigas com minha esposa), então cada vez me arrojava mais.
Um dia tive que participar de uma reunião noturna e combinei com minha esposa que ela deveria ficar à minha espera na casa de uma tia dela no bairro de Moema, pois como a reunião seria no Jabaquara, assim que eu estivesse livre passaria por lá e apanharia ela e nossas duas filhas e iríamos para casa.
Devidamente combinado, fui para o compromisso que demorou acima do previsto e terminou por volta das 22:00, apanhei o fusqueta e fui buscar minha família e todas as tralhas que nos acompanhavam a cada saída já que a mais velha estava com 4 aninhos e a mais nova menos de 1.
Lá chegando encontrei também com o noivo de uma prima da minha esposa que morava no Bixiga, como eu deveria ir para o Sumarezinho, ofereci carona a ele, que aceitou de imediato.
Levei-o, então, até a Rua Dr. Seng, e lá chegando decidi que meu trajeto até em casa seria o seguinte: Ruas São Carlos do Pinhal, Antonio Carlos, Bela Cintra, Matias Aires, Maceió, Angélica, Novo Horizonte, Minas Gerais, Dr. Arnaldo, Heitor Penteado, Cerro Cora e ponto final.
Decidido o trajeto, acelerei o carrinho e segui bem frente, já na Rua Maceió, deparei-me com um trânsito fora do normal para aquela hora, mas fui em frente, embiquei a frente do carro na Avenida Angélica e senti um arrepio na espinha, estava dentro de um dos grandes comandos que se realizavam naquela época. Todas as armas trabalhando em conjunto, eram os anos de chumbo, PM, Policia Civil, Aeronáutica e Exército em busca de contraventores de trânsito, “terroristas” e tudo mais que caísse na rede. E eu, transgressor do trânsito, havia caído na rede…
O pior era que além da multa, do carro guinchado, do maltrato às minhas filhotas, teria ainda de ouvir a dona da pensão falando o que bem entendesse aos meus pobres e humanos ouvidos… Ninguém merecia isso, muito menos eu…
Usando a primeira marcha, fui avançando da forma que o trânsito permitia, ouvindo os apitos frenéticos dos guardinhas e vendo os carros da frente serem revistados de cabo a rabo.
Eis que, senão quando, o fusca dá uma tossida e morre. Dei a partida (era um botãozinho no painel) por diversas vezes e ele nada de responder. Os carros da minha frente já estavam indo embora e os carros de trás querendo andar, e o fusca parado… Os guardas apitavam me mandando avançar e eu, depois de muitas tentativas para atende-los, saí do carro e comecei a fazer força para empurrá-lo, depois de algumas tentativas infrutíferas, chamei alguns militares, expliquei que havia dado pane e que o motor não queria pegar.
Eles constatando a minha “aflição”, confirmando a existência de minha querida esposa e filhas no carro, não tiveram dúvidas, me ajudaram a empurrar o carro para a calçada onde estacionei em frente a um prédio, esperaram eu pedir ao guarda do prédio que vigiasse o carro enquanto ele ali ficasse, chamaram um táxi que estava parado para ser vistoriado, me ajudaram a mudar minha família e todos os cacarecos de dentro do carro pára o táxi, liberaram o táxi da vistoria e me desejaram, ainda, um feliz fim de noite.
Livre do comando, fui embora para casa e no dia seguinte fui com o mecânico até o fusca, constatamos que a parada havia sido por causa de uma pane no dínamo. Mandei fazer o reparo que ficou, com certeza, muito mais barato do que as multas que eu merecia e iria levar.
Eta Santo Forte que eu tinha…
e-mail do autor: [email protected]