Outro dia, fui visitar meu amigo José Carlos em seu escritório situado à Rua General Jardim, depois dessa visita eu teria um outro compromisso em Sampa, lá na Avenida Ipiranga, na parte da tarde. Saí do escritório do José Carlos por volta das 10 h., e como tinha de fazer hora até o meu compromisso vespertino, descia a pé a Rua General Jardim, sem um destino definido, quando à minha frente apareceu um edifício que era muito meu conhecido na década de 50. A Biblioteca Municipal Infantil Monteiro Lobato, local que frequentei desde a sua inauguração. Parei na porta e fiquei a me lembrar dos tempos de outrora; eu morava, como já é sabido, na Rua Augusta e me lembrei do trajeto que fazia para chegar até a Biblioteca, saía de casa, descia até a Rua Caio Prado percorrendo-a até Rua da Consolação, descia a Rua Cesário Motta Jr., atravessava o terreno baldio que existia atrás da Biblioteca (lembro-me do cheiro que sentia nesse terreno quando ele acolhia um gato ou um rato morto), chegava na porta de entrada, assinava o livro de presença no balcão da portaria (ainda está lá no mesmo lugar e do mesmo jeitinho) e, pronto, já tinha minha entrada liberada. Quer dizer, liberada não, antes tinha como obrigação (ah se hoje ainda fizessem esse tipo de exigências por lá), fazer uma hora de leitura na sala específica, que era administrada por Da. Ivone (depois de quase 2 anos de freqüência por falta de novos livros para minha leitura, fui dispensado dessa obrigação, desde que, quando chegassem novos livros, eu fizesse minha leitura diária). Depois, liberado da leitura, eu ia para a sala de jogos e revistas, lia todos os gibis da época, jogava damos, quarteto, pega-varetas e outros jogos infantis e, depois, ia para a sala de artes. Nessa sala eu praticava pintura, fazia trabalhos manuais, tais como bonecos de papel jornal; fui pioneiro na manipulação de marionetes e ajudei a criar o Grupo de Marionetes da Biblioteca. Todos os meses apresentávamos uma nova peça para todos os freqüentadores daquele reduto de arte e cultura paulistano. Um nome que nunca mais esqueci foi o da diretora geral que era Da. Lhenira. Aliás, a minha especialidade na pintura sempre foram os palhaços, e o primeiro palhaço que pintei com tinta óleo foi parar na parede da sala de Da. Lhenira, que me enchia de elogios toda vez que nos encontrávamos. Bem, voltando ao início da narrativa, resolvi entrar e visitar a “minha” Biblioteca, e a decepção quase foi total, os tempos são outros, as salas, poucas em atividade, já não são as mesmas e não mantêm o mesmo glamour de outrora. Entrei calado e saí mudo. Às vezes a realidade nos assusta. Mas, a memória dos tempos passados me acalentou e o coração bateu com mais emoção quando eu pisava aquele solo tão sagrado da minha infância.
Saudade também faz parte do passado.