A época era entre 50/60, eu gerenciava uma laminadora de ferro na Penha, era a Comercial e Importadora Restinga Ltda., situada na Avenida Celso Garcia 5090, um pouco antes do pontilhão com a linha férrea.
Essa empresa era de propriedade de dois irmãos da quatrocentona família Assumpção.
A produção era de laminação de ferros para construção na bitola de 3/16 para amarração na construção civil.
Trabalhávamos em regime de duas turmas de 8 horas, e eu tinha sob meu comando 1 contramestre, o Nicola Mastropietro (carinhosamente chamado de Pedro), e uma turma de operários dedicados que oscilava entre 40 e 50 homens, que desenvolviam funções de forneiro, laminador, torneiro, ajudantes e motorista a maioria desse pessoal era de origem nordestina (só esses bravos brasileiros poderiam agüentar tarefas tão brutas e desgastantes).
Os lingotes de ferro, que eram nossa matéria prima, na maioria das vezes eram adquiridos da Metalúrgica Dedini em Piracicaba. E quando um caminhão chegava com uma nova carga o motorista, junto, trazia um garrafão de pinga da região para me agradar e acelerar a descarga.
Assim sendo eu tinha num enorme cofre de aço Nascimento, relíquia dos anos 30/40 uma coleção infinda de garrafões de pinga, alguns deles já aditivados com frutas, outros com a uca purinha. Era minha “Adega Segura”.
Embora sempre tivesse gostado de uma purinha, garanto que não tinha fígado ou condição física para esgotar aquele estoque. Então, usava essa reserva para promover premiação quando a produção do dia ou da noite ultrapassasse a casa das 5 toneladas.
Nessas ocasiões eu liberava uma verba para aquisição de pães, mortadela e queijo, fornecia um garrafão de pinga e, ao final do expediente, todos se reuniam nos fundos da empresa e ali comemoravam a excelência da produção bebericando um aperitivo acompanhado de uns salgados. Eu, claro, fazia questão de estar presente e me integrava cada vez mais com o pessoal, conseguindo uma verdadeira equipe de trabalho, embora formada por pessoas rudes e na maioria analfabetas.
Um dia, logo que cheguei à empresa, o Pedro veio me informar que o escritório havia repassado um pedido de 14 toneladas para o dia seguinte, o que iria perfazer um total de 18 toneladas para serem entregues de ferro, e que só tínhamos estocadas 4 toneladas.
O clima era de um calor incrível, mas a época era difícil e uma venda daquele vulto não poderia ser negligenciada. Reuni todo o pessoal no pátio, passei a informação e prometi: se conseguida a totalidade de toneladas necessárias, haveria pingada especial acompanhada de vários tipos de guloseimas.
No final do expediente da turma da tarde já tínhamos alcançado 8 toneladas de ferro e a missão da turma da noite estava um pouco mais facilitada.
No dia seguinte, assim que cheguei, antes mesmo de entrar no escritório tive a notícia de que o total produzido no final dos dois turnos tinha sido de 15 toneladas e mais, com pouca incidência de sucatas.
Festejamos e garanti para o final da tarde a pingada prometida. Quando estava chegando o final do expediente o Pedro veio ao escritório e me avisou, só precisa comprar pão e fornecer a pinga, o pessoal se cotizou e comprou uma grande porção de barrigada de porco e vai fazer torresmo com o calor do forno.
Achei ótimo e minha boca se encheu de água (sou até hoje doido por essa iguaria).
Depois do toque de parada dei um tempo e me dirigi com o garrafão de pinga ao local onde todos já estavam reunidos, disse algumas palavras de reconhecimento, entreguei o garrafão e me preparei para a festança.
Um dos forneiros abriu a boqueta do forno, retirou uma enorme bacia repleta de torresmos torradinhos. Foi uma festa, pão fresco torresmo e cachaça.
Já estava satisfeito quando o Pedro pediu silêncio e dirigindo-se a mim perguntou:
– Migué, gostou do torresmo?
Vendo a minha concordância, deu uma boa risada que foi acompanhada por todos os demais, e sem me dar tempo para retrucar, informou:
– Você não comeu torresmo coisa nenhuma, os teus sanduíches foram de pão com Iça torrada (tanajura) que capturamos durante todo o dia.
Pensei rápido, assimilei a informação e disse:
– Se é ou não é torresmo não me interessa, mas como o sabor está ótimo vou comer mais um sanduíche.
Fiz mais um sanduíche recheado de iças torrados, dei uma bela mordida, dei mais uma bicada na cachaça e sai todo satisfeito.
A experiência, garanto, valeu a pena!
e-mail do autor: [email protected]