Anos 90, os Duques de Piu-Piu sobreviventes sofreram mais um grande baque. O velho Honório (Palhetão, para os Duques), pai do Aloísio e nosso parceiro nas noites de Caxeta ou Buraco, atendendo a um chamado imperioso, depois de alguns dias de internação hospitalar, muda-se para o andar de cima e abandona os seus camaradas. O óbito foi sentido por todos nós que, independente do parentesco, tínhamos adotado-o como nosso pai e companheiro, nomeando-o, inclusive, o único Grão Duque de Piu-Piu. Feitos os rituais de costume, concluído o sepultamento, voltamos cada um de nos para o recôndito de nossas famílias. Como costuma acontecer nas famílias católicas, a missa de sétimo dia foi marcada. Seria realizada na sexta-feira pós óbito, às 19:00 horas na igreja de N. S. Achiropitta. No dia aprazado, os Duques se fizeram presentes chegando, inclusive, um pouco antes do horário. Lá estavam o Aluisio (lógico), o Capezzuto, o Eu com minha exposa (grafia nova que adotei para citar minha ex), o Francisco (21) e a esposa, o Xiribi não estava por estar residindo naquela época em Vitória (ES) e o Romano, como o Toninho depois de recepcionar o Palhetão no portão principal do andar de cima, estavam espiritualmente presentes.<br>Diz o ditado que “porta de Igreja, quando aberta, deixa entrar até cachorro”. Assim sendo, a missa já estava prestes a ser começada quando vi adentrar à nave da igreja a Maria Preta (não sei se Maria era mesmo seu nome, mas era um dos nomes a que ela atendia). Era uma negra magérrima, muito educada, mesmo quando embriagada, que vivia nas ruas do Bixiga, sem incomodar quem quer que fosse. Quando a vi dentro da Igreja estranhei, mas, como o momento era de recolhimento e oração, desviei meu olhar e me concentrei no altar mor. Nesse mesmo instante, ouviu-se uma discussão ininteligível com respeito às palavras proferidas, mas, distinguindo-se, perfeitamente, uma voz masculina e outra feminina. A discussão durou breves segundos e em seguida ouviu-se um grito mais agudo da voz feminina e um barulho característico de um corpo caindo ao chão. Olhei para trás a tempo de ver a Maria preta caindo, segurando com uma das mãos o pescoço na região da carótida, o sangue jorrando por entre os dedos e um vulto masculino evadindo-se pela porta da igreja sem que ninguém o impedisse. O crime ocorreu quase junto à porta de entrada, ou seja, às costas de todos os presentes que estavam com a atenção voltada para o altar-mor onde seria celebrada a missa in memorian do querido Palhetão. Houve um momento de nervosismo geral, o Padre desceu do altar, acudiu a Maria, mas percebendo que nada poderia ser feito, solicitou a chamada das autoridades policiais, ministrou os últimos sacramentos à vítima, cobriu o corpo com uma toalha branca, voltou ao seu local de origem e deu continuidade à Santa Missa. Foi a primeira e, espero, a última vez que assisti uma missa de 7º Dia com Corpo presente.
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