Memórias Fraternais

Anos 50, Rua Augusta, Escola Santa Mônica, entre os alunos matriculados eu, meu irmão Carlinhos e meu primo Roberto.
Estudávamos no período da manhã, entrada às 7:45h e saída as 11:45h, todo o dia lá estávamos nós no horário certo pois não seria legal o atraso, já que morávamos na mesma quadra, em casa fronteiriça à Escola.
Como era costume, levávamos na lancheira a merenda para ser consumida no recreio, que saudades do pão com banana, do sanduíche de ovo, do sanduíche de pão com manteiga e açúcar, do pão com mel e de outras especialidades maternas. Na época não havia a possibilidade de aquisição de lanches em cantinas escolares.
A única coisa que quebrava o ritmo de nossos recreios era quando por uma magnânima decisão da diretora, Madre Maria Olavo, eram distribuídos aos alunos picolés que as internas do Colégio Santo Agostinho, que estava instalado na mesma área e separado por muros, produziam.
No final do período de aulas, ao sairmos para a rua, nos deparávamos com um cenário constante e muito tentador, do lado esquerdo de quem saía, estava posicionado o “machadinho”, que com seu tabuleiro, devidamente coberto para evitar as moscas e abelhas, esperava para nos servir belos pedaços daquele doce duro e delicioso. À frente, estacionado, estava o sorveteiro que na sua charrete amarela e vermelha majestosamente atrelada a um garboso eqüino, esperava para servir deliciosos sorvetes.
Nós, por sermos de família grande e não abastada, não podíamos nos dar ao luxo de comprar com a constância necessária aquelas maravilhas tentadoras. Mesmo por que, além da falta de verba, o horário não era o mais indicado para aquela alimentação.
Mesmo assim meu irmão sempre chegava em casa mascando um pedaço do doce lascado pelo machadinho. Ora porque ganhava, ora porque alguém lhe pagava. Eu até o invejava, pois não tinha a mesma sorte que ele.
Um dia, quando já estávamos sentados à mesa almoçando, tocou a campainha e minha mãe foi atender. Demorou-se por lá alguns minutos, voltou, continuo nos servindo a comida e esperou terminarmos de almoçar.
Pacientemente tirou as louças e talheres da mesa, lavou-os, guardou-os e então, com voz mais enérgica, chamou meu irmão, ele se aproxima dela e ela levando a mão à frente abre-a e mostra-lhe um objeto na palma da mão perguntando:
– Sabe o que é isso?
Lógico que ele sabia, e todos nos também. Era um broche, um elefantinho em prata e brilhantes, jóia que minha mãe guardava com carinho por ter pertencido à minha bisavó.
Meu irmão não teve tempo de responder, a surra exemplar começou e durou um bom tempo.
Depois ficamos sabendo que o Machadinho havia vendido um pedaço de doce para meu irmão e ele pagara essa guloseima com o broche em questão.
Se o homem não fosse honesto, a jóia teria se perdido e meu irmão, nestas alturas, estaria, quem sabe, adentrando por um caminho muito perigoso.
A surra serviu para lhe mostrar a inadequação do seu ato e graças a ela, ele aprendeu a lição.

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