Li outro dia uma crônica abordando o tema de sorvetes e emoldurando famosa e tradicional sorveteria paulistana, a Casa Whisky, lá da Praça Marechal Deodoro.
Como se costuma dizer que uma história puxa outra, aquela crônica me fez parar, lembrar e escrever esta memória.
Minha vida também foi pautada por sorvetes e sorveterias, algumas dessas passagens eu já contei em outros textos, mas das coisas ainda não contadas pretendo lembrar agora.
Na minha infância eu vivia enfiado numa sorveteria que fica na Rua da Consolação, quase esquina com a Rua Dr. Cesário Motta. Essa sorveteria era de propriedade de uma família japonesa e eu, como sempre muito metido, fazia questão de “trabalhar” ali nas minhas horas de folga (que eram muitas) e ganhar um ou dois ou mesmo três sorvetes como “paga”.
Essa sorveteria, me lembro bem, tinha suas máquinas ao longo do balcão frontal e ali eram batidos os sorvetes de massa. Desde aquela época meus sabores preferidos são nozes e pistache (não sei se por descendência árabe ou se pela cor esmeraldina).
O tempo foi passando, eu crescendo e as sorveterias se alterando na minha vida, teve a fase da Casa Whisky, teve a fase das sorveterias italianas (Monsenhor Bastos é quem pode atestar) e, como bom vizinho do Paraíso, teve a fase da Sorveteria Alaska, casa tradicional que fica ali na rua Dr. Rafael de Barros. Sempre que tinha possibilidade, quando comia minhas iguarias árabes nas famosas casas de esfihas e quibes da região, ia saborear minha sobremesa nessa sorveteria.
O caso mais significativo que tive nessa sorveteria foi já nos anos 80, numa das saídas em família resolvi que iríamos até lá saborear um sorvetinho. Ali chegamos, eu, Da. Cida, minha esposa, Da. Otilia, minha sogra, a Renata, a Roberta e a Rossana, minhas filhas.
Chegamos, sentamos à mesa e cada um formulou o seu pedido, quer dizer quase todos formularam seus pedidos, a Roberta ainda estava na dúvida, olhava o cardápio e as fotos dos sorvetes e não se decidia. Instada a se resolver ela me olhou com aqueles olhos enormes e disse:
– Posso pedir qualquer um?
Com a minha anuência ela escolheu o tal de Gigante Alaska (era uma taça com 1,5 kg de sorvete que servia 4 pessoas, muito apreciada pelos casais de namorados).
Não adiantou explicar que era muito sorvete, que ela não conseguiria comer todo, que iria lhe fazer mal. Ela mostrando uma enorme gula, encasquetou com a dita taça, bateu os pés e continuou teimando em pedir aquela iguaria pitoresca.
Já nervoso, avisei que iria pedir o sorvete, mas que ela não poderia deixar uma colherada para trás.
A taça foi servida e, sem qualquer exagero, cobria com sua altura a figura da minha filha. Esta por sua vez atacou o gelado.
Não demorou muito e percebi que os grandes olhos da minha Robertinha já se apertavam demonstrando pequenos enjôos.
As caretas foram aumentando até que antes de chegar ao final do primeiro quarto da taça ela confessou que não agüentava mais.
Fiz-me de durão, falei que não iríamos embora antes de ela terminar toda a taça (pretendia que a lição ficasse marcada em sua memória). Depois de algumas caretas e do inicio de um pequeno choro de manha eu e minha esposa nos vimos obrigados a consumir os 3/4 restantes do sorvete, de chocolate e morango.
Ainda hoje, quando em nossas reuniões, junto com meus netos, essa história é lembrada e motiva várias risadas.
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