Memórias de Vila Pompéia

Sim, então, ele saiu do Grupo Escolar Miss Browne na Rua Padre Chico e foi direto para o treino no juvenil do Palestra Itália, no campo da Rua Turiassú próximo à Vila Vitória, hoje um posto de gasolina na esquina da Avenida Sumaré, próximo à Rua Turiassú, onde havia um amontoado de casinhas de cortiços que estavam ali instaladas e serviam de habitação coletiva para várias famílias que ali moravam em meados dos anos 40.

O Biriba, morador em uma dessas casas de cômodos, tinha sido expulso do quadro de juvenis do Palestra Itália por falta de um acerto de uma importância em dinheiro que devia ser paga naquele mês. Iria ser substituído pelo Badico, outro frequentador assíduo do clube. Portanto, naquele dia, o Badico iria assumir a posição de centroavante deixada pelo Biriba. O moleque ainda não tinha uniforme. Era ele um penetra, um intruso, um escalador habitual dos muros da Rua Turiassú porque não era associado ao clube. Improvisou a calça curta presa por dois grandes botões nos tirantes do suspensório, enrolou a bainha da calça acima dos joelhos, arrumou de qualquer jeito a cintura acima do umbigo e foi direto para o campo de futebol para o treino.

O Badico quando estreou a primeira calça comprida foi no casamento da Josefina, amiga inseparável de sua irmã Carmela e que havia contraído núpcias com o Ditão, um funcionário ensacador no depósito da carvoaria "Pérola Negra" na esquina da Rua Caraíbas com a Rua Venâncio Aires. O Ditão era um sujeito horrendo que morava em um quartinho nos fundos do cortiço do Francisco Bonella, um italiano muquirana, proprietário de um apinhado de casinhas de cômodos nos fundos do terreno de sua propriedade. Era ele amigo do peito do Luigi Vitorino, dono da padaria Nova Flor Vitália da Pompéia.

O Badico era um moleque inteligente e, para a satisfação e alegria do pai, depois de assistir durante o ano letivo de 1949 as aulas no Colégio Oswaldo Cruz na Rua Santa Izabel, próximo ao Largo do Arouche no centro da cidade, foi aprovado na avaliação do exame de admissão ao ginásio para ingresso no quadro de discentes regularmente inscritos no ensino ginasial do Colégio Campos Salles no bairro da Lapa. Não foi aprovado com boas notas, porém no boletim escolar, na média geral das matérias cursadas, era de cinco pontos e meio, o que lhe garantia de frequência às aulas do curso matutino do tradicional colégio do bairro da Lapa.

Em Vila Pompéia, onde ele morava, costumava passar diariamente em frente à quitanda do Manoel Cosmos Serafim, o portuga da carroça de verduras, e vez ou outra ele costumava surrupiar algumas bananas do cacho que estavam em frente, na porta do estabelecimento. Quando o Tutu, um velho professor do primário já prestes a se aposentar da cadeia pública da Avenida Tiradentes que, quando se fazia necessário, costumava sempre citar nas suas preleções a figura do nosso ilustre Rui Barbosa, admoestou-o com um sermão da montanha, porque era ele muito ciente das responsabilidades e sua santa esposa dona Rosinha lhe tinha dito que, roubar mesmo algumas bananas, era um pecado capital.

O Badico era filho do meio do Nicoló da barbearia Vila Pompéia, na Rua Venâncio Aires, 298. O moleque não era sócio do Palestra Itália mas, costumava atravessar o riacho da Rua Turiassú e aproveitava a escadinha feita pela molecada com tampinha de cerveja para galgar e pular o muro e ir treinar com os demais moleques deixando de lado a barbearia do pai, onde estava se exercitando para ser meio oficial de barbeiro. Seu nome de batismo era Giuseppe Fiorino Spacatto, mais conhecido pela alcunha de Badico.

Um dia de domingo, depois da missa na Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Pompéia, havia marcado um jogo com o pessoal do Sumaré. "Ases da Escolástica Futebol Clube" da Rua Paris, formado pelo que havia de melhor no meio da molecada como o De Biaggi, Cusparada, Pé de Pato, e Nicola, Balbino, Salamanca e Porpeta; na ponta direita e no ataque Pé de Cabra, Tamanco, Gasolina e Genarino. Um timaço de brio. O Badico havia assumido a liderança, ficando encarregado de juntar a molecada da Venâncio Aires para a pelada no campo do adversário no campo do Corinthinha do Sumaré, próximo à Avenida Heitor Penteado.

O jogo de várzea transcorreu sem muitos incidentes, porém houve um pequeno, inevitável e lamentável desastre: o time do Badico perdeu de cinco a zero para o pessoal do Sumaré. Uma tristeza geral, um constrangimento. A barbearia do Nicoló era conhecida em todo bairro de Vila Pompéia. Ali faziam ponto de encontro os principais desocupados da região. O Nicoló era um entusiasta adepto do jogo do bicho. Naquela época o jogo não era reprimido, fato esse que levava o Nicoló, depois de uma e outra tesourada, costumar chamar o pobre do Carmenieri e mandava o homem ir até o chalé do Metello jogar quinhentos réis no milhar do jogo do bicho, porque tinha tido uma premonição que aquele número daria na cabeça.

Diante da porta da barbearia costumava ficar a Jussara, uma morena simpática de belos atributos físicos com um vestido de organdi verde e branco coladinho no corpo, joelhos de fora, esperando ansiosa a chegada do Tesourinha, um moleque molambento, desengonçado, cabelos mal penteados, feio de doer mas que, aos olhos da Jussara parecia com a divindade de um deus Apolo da mitologia greco-romana. São mistérios que o coração conhece, mas que a razão desconhece. Vinha ele todos os finais de tarde se aboletar nos degraus de uma casa abandonada, onde tempos atrás um tal de Zé Ismael tinha morrido de uma crise de cirrose hepática depois de ingerir duas garrafas de água ardente e o fígado, já doente, do infeliz não aguentou e explodiu.

Um tal de Beiçola quando soube da chegada do Tesourinha, ficou preocupado. Ele também era apaixonado pela Jussara. Mas não adiantava nada a empolgação do moleque, porque a moça se derretia toda pelo Tesourinha. Se o moleque fosse para a cadeia por causa de uns pequenos furtos havidos na região, a culpa era toda dela. A Jussara queria casar de qualquer jeito e o Tesourinha não reunia nenhuma condição financeira para assumir responsabilidades. Passou a afanar alguns apetrechos deixados dentro dos automóveis que ficavam ali estacionados, enquanto os proprietários iam assistir as partidas de futebol no campo do Palestra Itália.

O Tesourinha estava fazendo vestibular para atuar em áreas mais sofisticadas como o de batedor de carteiras nos bondes Penha-Lapa. Para tanto, convidou o Ditão e o Boca de Sapo para se reunirem em frente ao portão principal da Rua Turiassú; dali podia observar quando o proprietário do automóvel sumia dentro do clube e era fácil controlar o término das partidas, enquanto o Ditão e o Boca de Sapo faziam o serviço de coleta dos pertences alheios. Eles se destacavam pela agilidade e destreza; eram mestres na esquiva e especialista em ataques rápidos. Agiam sobre o comando do Tesourinha que ficava sempre de “picinê” na porta do clube. Às vezes a polícia conseguia agarrá-lo e era conduzido ao distrito para uma acareação, mas, uma vez que ele era menor de idade, no dia seguinte ele estava de novo no meio da rua.

O Tesourinha e seus asseclas eram conhecidos como o Bando da "Caveira" e que depois se transformaria na Gangue do "Esqueleto", pelo bom desempenho no ato de afanar. O Tesourinha quando completou a maioridade foi preso e desta vez era para valer. Iria ficar vendo o sol nascer quadrado mofando atrás das grades por um longo período de tempo. A sua sonhada Jussara de tanto amor que tinha por ele, não aguentou a espera de sua saída da prisão e acabou ficando com o Beiçola, que na época era menor de idade e também estava fazendo vestibular para substituir o Tesourinha no afano de carteiras no bonde Penha-Lapa.

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