A idade já chegou faz algum tempo. A memória ainda lúcida teima em trazer ao presente fatos, coisas, retalhos da minha vida que foi, graças a Deus, intensa e bem vivida.<br><br>Hoje, domingo, acordei cedinho, meu companheiro de todas as horas, o rádio, sintonizado na Rádio Bandeirantes de São Paulo, apresentava um programa que muito me agrada: Memória. E o tema do programa era as marchinhas carnavalescas. Uma voz se fez presente, o "Rei da Voz", o inesquecível Francisco Alves cantava uma marchinha de grande sucesso, “Confete/ pedacinho colorido de saudades/ ai ai ai ai/ao te ver na fantasia que usei/ confete confesso que chorei”. eu, também, quase chorei. Lembrei de uma sexta-eira do mês de stembro de 1952.<br><br>Eram 18h, final de expediente, e o "Office boy" da Construtora Soutello, instalada no 9º andar do Pédio da Rua Barão de Itapetininga, 88, ganha às ruas para se dirigir à Escola Técnica de Comércio Frederico Ozanan, na Praça Franklin Roosevelt. Seu trajeto invariavelmente é: Rua Barão de Itapetininga, Rua Marconi, Praça Dom Jose Gaspar, Avenida São Luiz, Rua da Consolação e, finalmente, Praça Franklin Roosevelt.<br><br>Porém, no dia 25 de setembro de 1952, a curiosidade mudou um pouco seu trajeto. Ao cruzara a Rua 7 de Abril, olhando para seu lado direito, percebeu uma pequena multidão que se agrupava à porta do prédio dos Diários Associados. Curioso como os moleques da sua idade, entra na Rua 7 de Abril e chega até o prédio em questão. Ali chegando, começa o trabalho de pesquisa para saber o que aquelas pessoas estavam aguardando.<br><br>De acordo com as informações um tanto ou quanto desconexas, deduziu que a espera era para assistir um pequeno show de Francisco Alves que, naquele momento, estava visitando e dando uma entrevista ao Diário de São Paulo. Não teve dúvidas: resolveu também aguardar para ver e assistir ao seu ídolo.<br><br>Franzino como era, conseguiu, com alguns empurrõezinhos, chegar até a frente do populacho e junto a um tablado que ali fora instalado. Sem qualquer cerimônia, sentou-se sobre o referido tablado e esperou.<br><br>Sua espera não foi muito longa. Depois de algum tempo, vindo dos fundos do saguão, Francisco Alves e alguns músicos se aproximaram e subiram ao palco improvisado. O rei da voz cumprimentou a todos, e desculpando-se pelo adiantado da hora, pois ainda teria outros compromissos profissionais a cumprir, prometeu que cantaria alguns poucos números de seu repertório para homenagear o tão seleto público que havia esperado por ele.<br><br>Dito isso, começou a cantar. A primeira música foi “A voz do Violão” (“não queiras meu amor saber da mágoa…”); depois foi a vez de “5 Letras que choram” (“adeus adeus adeus, 5 letras que choram num soluço de dor”); veio em seguida “Malandrinha” (“A lua vem surgindo cor de prata…”)…<br><br>Então, agradecendo a presença de todos, disse que ia encerrar sua pequena apresentação cantando uma marcha carnavalesca. Foi então que um moleque que estava sentado sobre o tablado, babando de satisfação, puxou a barra das calças de seu ídolo e, quando este baixou o olhar, pediu “A mulher que ficou na Taça”.<br><br>O rei, emocionado com tal pedido, mudou o fim de sua apresentação e oferecendo a última música a seu pequeno fã, cantou “A mulher que ficou na taça” (“Fugindo da nostalgia, vou procurar alegria, na ilusão dos cabarés”).<br><br>Foi uma interpretação magnífica. Depois, o rei se despediu, desceu do tablado, acariciou a cabeça do jovem fã e seguiu seu caminho.<br><br>Eu também segui o meu. No dia 27 de setembro, sempre ligado no meu rádio, recebi uma notícia avassaladora. O "Rei da Voz", depois de estrondoso show no Largo da Concórdia, tinha sofrido um acidente ao seguir viagem para o Rio de Janeiro. Um caminhão rodando na contramão batera em seu veículo, que incendiado, matou meu ídolo. Que horror…<br><br>Só me restou nos ouvidos a sua última canção, e na cabeça aquele pequeno afago.<br><br>E-mail: [email protected]