Aquele dia, como de costume, começava bem cedo para mim, quase madrugada. Deixei minhas irmãs na fábrica às 5h45, voltando pela Visconde Parnaíba, fui em direção a Rua Piratininga como fazia todos os dias e logo peguei um passageiro que ia para a Avenida Ipiranga, na agência da Viação Cometa. Como era bem cedo, o Cometa que vinha do Rio e que chegava por volta das 7h da manhã não iria conseguir alcançar, pois eu só pegava as sobras porque existia o ponto de táxi em frente e eles tinham a prioridade para os primeiros passageiros.
Então rumei para a estação da Luz porque o trem de aço da Paulista costumava chegar às 6h30, quando não atrasava. E quando cheguei encontrei a fila de passageiros formada, pois ele já havia chegado e os taxistas do ponto da Luz já tinham todos saído com outros passageiros. Aí, peguei uma família que ia para o Bairro do Ipiranga no fim da Rua Bom Pastor. Essa história, por ser tão inusitada, ficou na minha memória para sempre.
Depois de deixar essa família no seu destino, fui em direção a Rua Silva Bueno, pois teria melhores chances de conseguir algum passageiro. Essa via era onde passavam todos os transportes públicos, inclusive o velho bonde. Não demorou muito e em uma esquina, não lembro bem, mas se não me engano a 2 de Julho, um passageiro me deu sinal. Ele sentou na frente e me cumprimentou com um bom dia e ordenou: “Centro, por favor”, e como já tinha um jornal na mão começou a ler.
O meu rádio estava ligado em um volume relativamente baixo, e eu o desliguei para deixá-lo mais a vontade com sua leitura. Normalmente, o passageiro que sentava no banco da frente tinha um bom papo, mas este senhor preferiu a leitura e, como sempre fazia nesses casos, fui fazendo a minha parte que era levá-lo ao seu destino. Quando já estávamos no fim da Avenida D. Pedro, quase chegando à Avenida do Estado, ele fechou o jornal e me disse: vamos ter que voltar, pois esqueci um documento importante em casa.
Aí fiz o contorno cuidadosamente e voltamos e, de novo, não lembro bem, me parece que era a 2 de Julho. Ele me direcionou e chegamos a sua casa e ele me pediu que o aguardasse um instante. Foi aí que, alguns minutos depois, ouvi uns gritos de mulher, como que implorando e dizendo não, não, não. Em seguida, vejo um homem saindo descalço e carregando algumas peças de roupas nas mãos, mas em desabalada carreira em direção da Rua do Manifesto, que era paralela com a Silva Bueno. Eu, naquele momento, fiquei como que em estado de choque. Não demorou muito e esse senhor saiu, e tornou a sentar-se na frente.
Eu não sabia o que dizer, e ele tornou a abrir o jornal, mas notei com nitidez que ele tremia bastante. E em um momento triste como esse, o silêncio era o mais aconselhável, e assim fiz, respeitei a sua privacidade e não trocamos nenhuma palavra o caminho todo até o Centro. Ele desceu na Rua XV de Novembro ao lado do Largo do Tesouro, que naqueles tempos era transitável. Eu ainda era solteiro na época, pois isso deve ter acontecido mais ou menos no ano de 1954. Aquele resto do dia foi muito triste para mim, pois não conseguia tirar minha mente daqueles momentos tão insolentes vividos por aquela família. Depois comecei a tirar algumas conclusões: Será que realmente ele tinha esquecido algum documento em casa? Ou aquilo talvez tivesse sido uma desculpa para voltar à casa de surpresa?
No dia seguinte comprei o jornal, pois tinha a impressão que ele teria feito alguma coisa de mal a ela, pois depois que ele saiu o silêncio dentro da casa era total. Enfim, essa foi uma memória bem triste dos meus tempos de taxista e que nunca consegui apagar da minha mente, infelizmente.