Memórias de um taxista IX

Era um sábado pela manhã da Primavera do ano de 1959, fui procurado por dois amigos lá na Rua Caetano Pinto para fazer uma pequena viagem a Franco da Rocha para internar uma pessoa com problemas alcoólicos. Essa pessoa tinha sido casada com a irmã da minha esposa, mas já estavam separados há muitos anos.
 
Os amigos que me procuraram, que também eram amigos do Antonio, o que iria ser internado, eram o Antonio Rebolo, conhecido no comércio do ferro velho do Braz, e o João Lopes, o popular cozinheiro, grande craque do XI Milicianos e depois do APEA, e que era cunhado também do Antonio, mais conhecido como “o bolinheiro” (todos já falecidos). 
 
O Antonio bolinheiro não tinha ideia que iria ser internado, e entrou no meu carro feliz, pois ele nunca tinha ido a lugar nenhum comigo; com todo o respeito que tinha por ele e meus sobrinhos, seus filhos, pois embora o conhecesse desde que a gente era criança (ele mais velho que eu) por motivos óbvios não tínhamos praticamente nenhum contato, pois ele era separado e provocava atritos entre a família da minha cunhada.
 
Nem lembro a desculpa que eles arrumaram para levá-lo com a gente nessa viagem. Mas assim foi feito e pelo caminho antes de entrar na estrada ele fez com que a gente parasse o carro algumas vezes para tomar um gole, mas nas paradas ele tinha que tomar ou água ou café para sua contrariedade.
 
Ele não tinha ideia onde ia e acabou adormecendo. E, quando chegamos, o Rebolo e o Cozinheiro foram entrando e eu os acompanhei. Naquela época eu tinha feito uma promessa a Nossa Senhora Aparecida e tinha deixado minha barba crescer, portanto minha barba negra estava enorme. O Antonio continuou dormindo no banco de trás do meu táxi.
 
Ai é que aconteceu o imprevisto para mim: depois de preencher todos os papéis de internação vieram dois enfermeiros enormes perguntando quem era o paciente, no que o Rebolo e o Cozinheiro apontaram para mim e os enfermeiros foram me agarrando um de cada lado e me arrastando para dentro do hospital com meus protestos e em cima de tudo achando graça, pois os enfermeiros não ouviam meus apelos, enquanto isso o Antonio dormia no banco traseiro do meu carro e os meus amigos riam à vontade da minha desgraça. 
 
Eu, de longe ainda, advertia os dois, pois aquilo era uma brincadeira de mau gosto, e que iria render uma bronca em cima deles, como, aliás, rendeu, pois os enfermeiros achavam que eles é que tinham sido feito de palhaços.
 
No fim deu tudo certo e o Antonio ficou lá uns dois meses, melhorou do alcoolismo, mas logo voltou ao que era. O fim dele foi triste, pois acabou morrendo atropelado na Rua Piratininga. Que Deus o tenha.