Memórias de um assassinato (Miguel Chammas)

Ele começa sua narrativa exaltando o que há de mais rico em nossas vidas, a formação da sua família. Acredito que todos nós que escrevemos nossas histórias aqui no SPMC tenha comentado ou narrado fatos vividos nas nossas famílias, relembrando dos nossos pais, avós ou os “nonnos”, palavra que passou a fazer parte do nosso vocabulário, herdada da colônia italiana naquela época.
 
Os tios e tias que visitávamos aos domingos, as reuniões em família em que o prato principal era a famosa “macarronada da mama”. Após seu relato vem o que me prendeu e me aterrorizou na sua história, “o assassinato”. Na sua narrativa os personagens são: ele e seu irmão. Comecei imaginar coisas terríveis que só poderia ter ocorrido com o seu irmão. Credo, será que assassinaram seu irmão? A história me prendeu de tal maneira que não via a hora de ver o final, como nas histórias de tantos filmes que assistimos, que no final o assassino é o mordomo. 
 
Porém, não passou de uma peraltice praticada pelo seu irmão. “Arre”! Isso me fez lembrar da nossa época em que, “As folhas” lançaram na década de 70 o Jornal “Notícias Populares”, que muitos de vocês conheceram. O valor também era popular, um cruzeiro. O foco do jornalismo ali impresso era casos de assassinatos, roubo, e tudo que acontecia de pior na nossa capital, Sampa. Diziam na época: se você torcer o jornal corre sangue. A manchete do dia era estampada em letras garrafais, chamando a atenção dos leitores, e ficava dependurado por um pregador de roupas bem na entrada da banca, formando-se rodinhas para ver a tragédia ocorrida no dia anterior. 
 
Naquela época, na maioria dos pontos iniciais dos ônibus havia uma banca de jornal. Estava eu sentado em minha mesa de trabalho, e aos poucos iam chegando os funcionários, quando notei que a maioria chegava com um jornal de baixo do braço. Cada um sentava-se em sua mesa, logo abria o principal caderno e gastava-se um tempo lendo a principal notícia daquele dia, no que pude notar a manchete que dizia: “Cachorro faz mal a uma moça”. Meu Deus será que o repórter pegou em flagra o cachorro copulando com uma moça? Será que tem fotos? 
 
Só sosseguei quando o Sr. Rubens dando muita risada, jogou o jornal na minha mesa, pedindo para que eu lesse a manchete. Não havia fotos, e sim a notícia de que:
 
Uma moça comprou um “cachorro quente” em uma lanchonete no Largo do Café e o sanduíche lhe fez mal. (risos…) Olha gente estou até pensando que esse repórter da época era o “Miguel Chammas”, vocês não acham? (risos).
 
Eu cheguei em frente ao portão, meu cachorro me sorriu latindo. Minhas malas coloquei no chão. Eu voltei. Era o nosso rei Roberto. Abraços a todos.