Interlagos é um local de muitos acontecimentos da minha vida. Foi lá que, nos anos 50/60, eu dancei demais nos salões do Cassino Vila Sofia. Mas antes eu dancei também por outra ocorrência.
Em meados dos anos 50, a beira da Represa de Guarapiranga era considerada a “praia paulista”. Para lá se dirigiam as famílias, nos fim de semanas ensolarados, para tomarem umas caipirinhas, fazerem um pic-nic, onde, depois de banharem-se nas águas da represa, degustavam um franguinho com farofa na mais perfeita harmonia e tranqüilidade.
Na orla da represa, estavam instalados diversos bares e restaurantes, onde pessoas, de melhor condição financeira, saboreavam drinques e almoçavam em mesas colocadas de maneira a permitir ampla vista das águas serenas. Havia também redutos, onde se alugava uma bicicleta ou até um cavalo pangaré para passear pela “prainha”.
Sempre buscando aventuras, os Duques de Piu-Piu, de vez em quando, para lá se dirigiam. Numa certa ocasião, depois do almoço de domingo, nos encontramos e resolvemos ir até Interlagos para alugar alguns cavalos e brincar um pouco.
Decisão tomada, nos dirigimos para a Praça 14 Bis e embarcamos num ônibus que nos levaria até lá.
Chegamos e fomos estudar os cavalos expostos para locação. Éramos grandes “experts” na matéria. Assim, verificadas as características de cada um dos animais (principalmente o nome), observadas algumas voltas dadas com os animais por outros cavaleiros, decidimos que estava na nossa hora de dar uns galopes. Cada um escolheu sua montaria. Eu, muito esperto, avisei logo que queria alugar a “Lindóia”, uma égua alta, castanha, espevitada e que me pareceu bastante arisca.
Cada um pagou sua ½ hora de locação (era praxe se pagar antes de passear), e saímos para a grande aventura. O cavalo que o Xiribi havia alugado não queria saber de nada: dava dois passos e parava para comer um pouco de capim – e não adiantava cutucar, bater nas ancas com um flexível galho de árvore. Nada o fazia mudar de atitude.
Eu, no dorso da Lindóia, para tirar sarro do Xiribi, avisei: “Olha só como a minha montaria galopa”. Aticei a potranca, dei-lhe duas chibatadas nas ancas e a bicha, toda esbaforida, saiu em desabalada carreira. Para mim era a glória. Quando estávamos retornando ao ponto de partida naquele grande galope, a égua deve ter reconhecido o lugar e, sem nenhum aviso ou comando de minha parte, deu uma estancada, abaixou o pescoço e eu, sem estar preparado, só tive o trabalho de sair voando.
O vôo não foi tão longo, mas a aterrissagem não poderia ter sido pior. Embora o leito carroçável da avenida da praia fosse de terra, já haviam sido iniciadas as obras de pavimentação, e as guias das calçadas já haviam sido colocadas. Eu, no vôo desengonçado, virei o corpo e, assim virado, fui bater com as costas na quina da guia da calçada.
Pronto! O domingo estava completo. Depois da queda, só uma coisa a fazer: levar-me para a Santa Casa de Santo Amaro, para onde os demais componentes dos Duques de Piu-Piu me levaram, com as roupas sujas e rasgadas. Depois de consultado e medicado, sem que nada mais grave tivesse ocorrido, pensávamos no pior.
E o pior era ter que agüentar os nossos pais a falar e bronquear sobre as nossas aventuras impensadas e nos perigos que delas poderiam advir. Isso era muito pior do que o tombo que eu havia tomado. Mas o pior era que ouvíamos e depois íamos fazer tudo de novo.
Coitados dos nossos anjinhos da guarda!
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