Memórias de antigamente

Meu irmão mais novo, o Antonio Carlos (Carlinhos ou Cá), é uma figura impar. Seu gênio é totalmente diferente do meu; nem parece que somos produtos da mesma fábrica. Enquanto eu sou comunicativo, alegre, informal, ele é ranzinza, emburrado e muito formal (vaidoso). Enquanto eu sempre gostei dos estudos, ele queria fugir dos livros.

Apenas uma coisa ele sempre foi e é muitíssimo melhor que eu: ele é um autodidata do ritmo. Sem nunca ter tido em uma aula sequer, é um baterista de mão cheia, toca tudo quanto é instrumento de ritmo como se profissional fosse.

De pequeno, no quintal de nossa casa na Rua Augusta, bastava entregar-lhe uma lata velha daquelas de 18 litros e duas varetas para, em questão de segundos, ele as transformar em uma sonora e estridente bateria. Então, depois de alguns minutos de audiência, começavam a chegar reclamos da Dona Antonieta e do Senhor Musa, nossos vizinhos da esquerda, e da Doa Elvira e Dr. Manfredo, nossos vizinhos da direita. Mais alguns poucos minutos e lá estava Dona Thereza, nossa mãezinha querida, de cabo de vassoura na mão, ordenando que o artístico instrumento fosse calado e total desmanchado.

Obedientes (éramos um pouco), mas temerosos da surra que poderia vir a qualquer momento, atendíamos às ordens e nos calávamos até a próxima travessura. Este preâmbulo foi apenas porque me lembrei de contar a respeito de uma nova passagem de nossa infância.

Como já é sabido, pois contei em outros textos da minha vida infantil, estudávamos, eu, o Carlinhos, meu primo Roberto e minha prima Sonia, no mesmo colégio. A escola Santa Mônica, que ficava em frente à minha casa. Uma vez, querendo, novamente, se livrar de ir à escola, quando nossa mãe exigiu que ele vestisse o uniforme e fosse para a aula, o Carlinhos iniciou uma ladainha de queixas e resmungos. Ao ouvir sua insistente e definitiva recusa de ir para a escola, minha santa mãezinha resolveu dar-lhe a oportunidade de justificar a causa daquela súbita negativa. Meu querido e impagável irmãozinho, munido com a mais sofrida expressão de sofrimento, informou que estava muito doente e não com seguiria atravessar a rua e assistir as aulas do dia. Dona Thereza, com a mais cândida das intenções, perguntou:
– O que você tem meu filho?
E ele, se esforçando para demonstrar um sofrimento absurdo e de muita dor, respondeu em alto e bom som:
– Ai mamãe, eu estou com uma enorme dor no útero, não consigo nem respirar…

Naquele dia, a classe de Dona Rina teve a presença de um aluno marcado com algumas cintadas na bunda e com os olhos inchados de um choro verdadeiro.

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