Morei até os doze anos numa rua quase em frente ao grupo escolar Barão de Souza Queiroz, que fica na Avenida Gabriela Mistral. Entrei lá em 1968.
Os fundos da minha casa davam para a variante que ligava o Brás à Calmon Viana. Lá vi muitos trens de carga e de passageiros, inclusive o famoso trem de prata, que chamavam a atenção pelo seu interior luxuoso (pelo menos é o que a gente via pela janela). Vi também o alvoroço causado pelos atropelamentos do trem, e devo confessar que até hoje atravesso qualquer estrada de ferro com o máximo de respeito e atenção.
Meu pai era funcionário da prefeitura e trabalhava na fiscalização do Rio Tietê. Não tive a oportunidade de pescar com ele, pois quando ele faleceu eu era ainda muito pequeno.
A minha rua também era de terra, e eu gostava muito de brincar com a água que descia pela beira das calçadas após as chuvas de verão. Cresci naquela região, indo à escola todos os dias no "Barão", assistindo missa todos os domingos na Igrejinha de Santo Antônio. Comprava material escolar no armarinho do "Seu Zé da Lojinha", que ficava em frente à escola. A casa dele ficava ao lado e tinha um imenso gramado e um pinheiro muito alto e delgado, que balançava com o vento. Hoje, a casa dele virou uma igreja evangélica e a lojinha virou um boteco.
Pois é, muita coisa mudou. Naquele terrenão, entre a linha do trem e a marginal, havia muitas chácaras e lagos; vi muitos girinos e tabocas naquele lugar. Tinha também o campo do herói, onde tinha jogo de várzea quase todo final de semana. Naquele pedaço tinha até o Cine Chaparral, que foi o primeiro autocine ao ar livre de São Paulo (nem sei se teve outro!) e dava pra ver os filmes – sem som, é claro – lá da minha casa.
Hoje em dia o cinema virou o Cingapura Chaparral, o campo do herói foi aterrado, os lagos sumiram, mas as lembranças ficaram, de um tempo em que a infância era mais livre e de um tempo em que, inclusive, o ensino público era bem melhor do que a gente vê atualmente.
Um abraço a todos e viva a Penha!
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