Memórias da incompatibilidade

O colégio que marcou minha juventude foi, sem dúvida alguma, o Colégio Comercial Frederico Ozanan que, na época da minha primeira matrícula, chamava-se Escola Técnica de Comércio Frederico Ozanan.
Foi nele que tive minha iniciação política disputando pleitos para os cargos diretivos do Grêmio Estudantil, ali também tive minha iniciação esportiva participando dos campeonatos esportivos de Vôlei e de pingue-pongue; tive meus primeiros relacionamentos amorosos. Desenvolvi minhas habilidades teatrais. E, ainda, ajudei a fundar a fanfarra que foi reconhecida como uma das melhores de São Paulo na época.
Muitas histórias eu tenho guardadas na memória sobre o Colégio. Hoje resolvi contar sobre uma, ocorrida no início dos anos 1960. O Diretor, professor João Batista Negrão Ferreira, havia resolvido expandir suas atividades e adquiriu o Colégio Santos Dumont que ficava no Brás. A idéia era fundir as duas entidades e fazer uma massa de ensino mais acentuada. Porém, os planos não foram efetivamente bem aceitos pelas turmas discentes dos dois colégios.
Amor ao colégio de origem, à sua camisa, à sua bandeira (a do Ozanan criada por este escrevedor) criaram barreiras bastante intransponíveis. Mesmo assim o professor Negrão resolveu fazer uma tentativa de integração.
Marcou uma tarde de atividades esportivas e sociais, local: praça esportiva do Vila Maria (Marginal do Tietê, início do viaduto da Vila Maria no sentido para o bairro).
Convocou a seleção de futebol dos dois colégios, convocou a fanfarra do Ozanan, alugou ônibus para transporte dos esportistas, da fanfarra e das torcidas de ambos os colégios e, numa certa tarde de sábado, lá se apresentaram os convidados.
No início tudo foi festa, as seleções entraram em campo, os capitães dos dois times trocaram placas de comemoração, a fanfarra mereceu também uma placa comemorativa, que o Marião (instrutor chefe) recebeu com orgulho, o professor Negrão falou sobre a importância do coleguismo e dos bons relacionamentos e, por fim, foi dado o ponta-pé inicial à partida.
O jogo já ia quase na metade do primeiro tempo quando a fanfarra foi chamada para cerrar fileiras e iniciar treinamento obrigatório de todos os sábados. Todos os componentes se apresentam e começam a “fanfarrear” utilizando o viaduto para sua marcha. Eu como componente da mesma, estava no meu posto (ponteiro dos surdos 90) e marchava com um olho no Marião e o outro na partida que se desenvolvia no mal tratado gramado.
Já tínhamos feito a travessia do viaduto e estávamos terminando a volta quando, num lance mais brusco, o Sodré (jogador quase craque do Ozanam) foi atingido deslealmente por um jogador adversário. O Settani (outro quase craque do nosso time e componente dos Duques de Piu-Piu) saiu em defesa do companheiro, deu o primeiro de uma centena de tapas que se sucederam.
A fanfarra se dispersou e foi se unir novamente no meio da confusão. Alguns brigando de mãos livre, outros com as baquetas e outros ainda, de posse dos instrumentos de couro ou de sopro.
Foi uma grande celeuma. Resultado: Sodré hospitalizado, alguns elementos dos dois colégios detidos a espera dos responsáveis e os demais retornando às suas bases, cada qual contando a estória à sua maneira e dando a vitória para sua entidade de ensino.
O caso foi severamente criticado pela direção escolar que, como providência final, resolveu nunca mais tentar coligar os dois corpos discentes, que viveram independentes e felizes por vários e vários anos.
Este foi na verdade um caso real de incompatibilidade escolar.

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