Memórias cívicas

Estamos no alvorecer do dia 7 de Setembro de 2007. Acordei tentando reavivar meus sentimentos patrióticos que nesta data, outrora, era efervescente e radiante.
Lembrei que quando criança, morador que era da Rua Augusta, ficava excitado por sair para assistir a parada militar que acontecia na Avenida 9 de Julho e no Vale do Anhangabaú.
E por que sair mais cedo?
Era para não perder nenhum dos pelotões que desfilavam em seus fardamentos de gala.
O palanque oficial que recebia o Governador e o Prefeito com suas respectivas comitivas e toda a cúpula militar das armas, ficava instalado no centro do vale do Anhangabaú, um pouco antes do Viaduto do Chá.
As tropas que desfilariam ficavam formadas na Avenida 9 de Julho, a partir da Praça das Bandeiras. O desfile, invariavelmente era aberto com a Guarda Imperial Dragões da Independência ao som de clarins e montados em belíssimos corcéis que avançavam em passo marcado pelo asfalto negro do vale tradicional.
Assim sendo, saíamos de casa mais cedo, descíamos a escadaria que liga, ainda hoje, a Rua Frei Caneca à Rua Avanhandava e à Avenida 9 de Julho, seguíamos em caminhada mais acelerada até o início da avenida e lá chegando, antes do início da parada, voltávamos conferindo todos os detalhes das tropas que ali já se encontravam posicionadas para a solenidade.
O trajeto da volta era feito em passadas calmas e, sempre que permitido, no leito carroçável da avenida, bem próximo dos militares considerados como heróis naqueles momentos. Voltávamos, sempre até o ponto onde havíamos iniciado a caminhada.
Ali chegando, mercê dos nossos “enormes” tamanhos, conseguíamos lugares para sentar à beira da calçada e poder, assim, assistir a passagem das demais tropas que preenchiam o restante da Avenida 9 de Julho até o túnel.
Lembro-me que os últimos a desfilarem eram os batalhões motorizados formados por caminhões de transporte, ambulâncias, tanques de guerra e, encerrando o desfile, vinha a Cavalaria do Exército em pelotão com mais ou menos 50 cavaleiros e suas montarias altaneiras.
O sentimento cívico nos enchia a alma e fazia vibrar nossos corações.
Hoje, as paradas militares já não aceleram os corações dos infanto-juvenis. O povo que outrora se postava durante horas, aplaudindo a passagem dos militares em revista, hoje não mais se agita e faz questão de comemorar as datas festivas, a não ser quando compelido por ordens e interesses outros que aqui não me cabe analisar.
Apenas gostaria de registrar que esse desinteresse começou nos idos de 1964 e a cada ano subseqüente foi aumentando, mercê dos dissabores e sofrimentos, das censuras e dos policiamentos sofridos durante o jugo militar.
Será que um dia nosso povo voltará a cultivar o sentimento pátrio como antigamente?
Não sei, mas garanto que gostaria que isso viesse a acontecer, pois acredito que se assim fosse criaríamos uma força maior para enfrentar e vencer os desmandos e as barbaridades com que temos de conviver no dia-a-dia atual.

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