Memórias circenses

Eu era office-boy, trabalhava na Rua Barão de Itapetininga, 88 (não me lembro o pavimento). A firma era a Construtora Soutello Ltda., o prédio era ocupado também pela Junta Comercial de São Paulo, e em sua parede dos fundos se colava ao TEATRO SANTANA e na lateral direita de quem para ele olhasse estava a Galeria Guatapará.
Meu chefe era um paraibano arretado, o Sr. Jofre e entre meus colegas lembro-me, ainda do Serra, Aleto (cantador de tangos).
Num certo dia, novo Office-boy foi admitido para fazer o trabalho externo, enquanto eu era fixado na recepção. Este garoto de quem não consigo lembrar o nome se tornou, logo, meu camaradinha, contou-me um monte de mentiras que na época pareceram bem verdadeiras. Entre tantas me contou que seu pai era dono de uma rede famosa de panificação a “NOSSO PÃO” cuja matriz estava localizada no Largo do Arouche e que eu muito bem conhecia.
Passou a freqüentar minha casa e ali fazer suas refeições, era uma pessoa legal e todos se encantavam com ele. Para compensar pequenos gastos, levava para minha casa pães da firma onde seu pai não era o dono como tinha sido apregoado e, sim, um padeiro profissional, o que não veio lhe diminuir na minha visão depois da verdade descoberta.
Certo dia esse elemento ficou sabendo de minhas aventuras no campo teatral e me disse que era sobrinho do dono de um circo, prometeu-me, ainda, conversar com o tio e me introduzir no meio circense. Dessa vez não era mentira e num domingo aflitivamente esperado logo pela manhã nos encontramos e fomos para uma cidadezinha próxima de Osasco onde o circo estava montado. Lá chegando vi um circo-teatro (pavilhão) com palco e picadeiro o “internacional” “CIRCO IRMÃOS FERNANDES”, a cidade me lembrei agora era Presidente Altino, fui apresentado a todos e muito bem recebido, no mesmo instante me convidaram para participar do espetáculo da tarde e aceitando me preparei, incorporando o famoso FILOMENO, meu personagem palhaço.
O espetáculo daquela tarde foi bárbaro, eu me dei bem e a criançada adorou. Fui então convidado a fazer parte da troupe e para escrever o seriado que deveria estrear em breve, aceitei os convites e escolhi escrever sobre as aventuras do Zorro.
No domingo seguinte, com o capitulo 1 do seriado fomos logo pela manhã para Presidente Altino e lá chegando iniciei o ensaio do capítulo que seria apresentado. Terminado o ensaio, almoçamos e esperamos o início da matinê.
A função já tinha iniciado e eu me preparava para entrar como Filomeno quando ouvi um grito agudo FOGO!!!! Corri para o picadeiro e vi a lona de cobertura totalmente em chamas, vi mais, vi uma arquibancada cheia de crianças apavoradas e sem saber para onde ir, esqueci todo e qualquer receio que poderia ainda estar dentro de mim e me atirei ao encontro delas para ajudar os outros homens a salvar aquela criançada toda.
O circo queimou todo por obra de um embriagado que sem poder entrar no recinto, ateou fogo à lona com bombinhas de festa junina.
O espetáculo não pode prosseguir, e o espetáculo noturno corria o risco de não ser apresentado, foi aí, então, que eu vi a fibra do pessoal do circo, sem lona, sem nada, sem a receita da bilheteria que queimou também, resolveu numa forma heróica apresentar o espetáculo da noite em picadeiro e sem arquibancadas, tudo ao ar livre. Tal resolução tocou fundo nos moradores, que vieram em peso assistir o espetáculo e fizeram questão de pagar a entrada como se o circo ali estivesse devidamente instalado.
Foi um exemplo de solidariedade como nunca tinha presenciado. Atuei no espetáculo daquela noite e despedi-me do circo para não mais ali voltar. Encerrei minha carreira de picadeiro, mas não terminei minha carreira teatral que foi ainda alongada por vários anos. Mas isto é uma outra história e muitas outras lembranças que um dia colocarei no papel.