Memórias cavalares

Hoje, 25 de Janeiro me lembrei do Grande Prêmio São Paulo que era disputado (será que ainda é?) no Jockey Club Paulistano.
Lembrança vai, lembrança vem e nesse embalo de lembranças fui transportado aos meus tempos de freqüentador e apostador assíduo do Jockey Club, perdia tanto que já me considerava proprietário do Relógio que era exibido junto das raias do hipódromo paulistano.
Os anos eram os finais da década de 60, eu, como era useiro e vezeiro acontecer, estava completamente duro.
Estávamos no final do mês de Janeiro, na época eu era funcionário de uma empresa de nome Auto Asbestos e desenvolvia minhas atividades no setor de Tesouraria, meu salário era pequeno e, além de pequeno, já com saldo devedor de pelo menos o dobro do seu valor nominal.
Era realmente muito abuso da parte de alguns funcionários (entre eles, eu) que sacavam vales além dos salários, e no dia de pagamento assinavam a quitação do mês, um vale da diferença devedora e, lógico, um novo vale para enfrentar os dias que viriam.
Era um moto perpétuo. Então o Sr. Amadeu, Diretor Administrativo e Financeiro da Empresa, resolveu não permitir novamente essas extravagâncias financeiras e baixou uma determinação de que todo vale daquela data em diante somente seria concedido depois de consultada a posição da Conta Corrente do funcionário e com a sua expressa aprovação representada por sua rubrica no referido vale.
Pronto, para mim foi um balde de água fria na cabeça. Fevereiro entrando, carnaval chegando e eu sem um trocado no bolso.
Por mais que desse tratos à bola, não conseguia encontrar um caminho para sair da enrascada quando o Candinho, que era o tesoureiro da firma e meu superior hierárquico, se chegou perto de mim e disse: – Miguel, você sabe que estou para casar. Ontem fui entregar o convite ao padrinho de minha noiva e ele me chamando para um canto me disse que o meu presente de aniversário estava no papelzinho que me passava sorrateiramente, era o nome de uma égua que iria correr no hipódromo de São Paulo no sábado de carnaval e estava preparada para ganhar. Que eu deveria jogar tudo que pudesse arrecadar naquele cavalo.
Disse mais: – Você sabe que eu não entendo nada desse jogo e que pela minha função na Empresa nem posso me envolver em jogatinas, e eu sei também que você embora tendo da empresa as mesmas restrições, sabe e continua jogando sempre que pode, então…
No mesmo instante me assanhei, o que ele dizia era música para mim e perguntei: – O que você quer que eu faça? Quer que eu jogue para você?
Ele anuiu acenando a cabeça e eu concordei em ajudá-lo desde que ele me arrumasse algum dinheiro para jogar também. Ele concordou e, na segunda-feira antes do carnaval, com os valores em mão, me dirigi para a quitandinha do Jockey na Rua Boa Vista e formalizei as apostas em pules antecipadas.
A semana transcorreu e eu, ainda duro, não me animava em fazer planos para os festejos de Momo. Como membro dos Duques de Piu-Piu, avisei a todos os demais membros sobre a barbada e eles, tão “conhecedores” dos meandros do jogo, deram sonoras gargalhadas e me aconselharam a pedir emprestado uns binóculos para ver as pules antecipadas voarem pra bem longe.
O sábado fatal chegou, o cavalo que não era cavalo era uma égua de nome OLAIA, correria no terceiro páreo por volta das 15:30 hs. Nesse dia, com medo da decepção, não fui ao prado, fiquei em casa e munido do meu radinho Spica (lançamento recente no mercado) comecei a ouvir a irradiação que era feita pelo famoso Vicente Chieregatti e ele começou “Atennnnnnnnnção, foi dada a partida para o terceiro páreo do programa, tomando a Olaia que vai se distanciando, nenhum animal força para brigar com ela………………… contornam a curva e iniciam a reta final, Olaia vem de passagem, o Jockey já colocou o chicote em baixo do braço e vem tocando apenas com as rédeas, Olaia vai chegando vai chegando e cruza o disco final…. Olaia, azarona do páreo deve pagar um caminhão…”
Eu saí de casa como estava de camiseta, short (naquela época usava-se short e não bermudas) e chinelos. Pequei um táxi na esquina de casa avisando-lhe que iria me levar ao Jockey Club e me esperar na porta para receber a corrida. Lá chegando, entrei brincando com o porteiro, e cheguei ao guichê pagador (a égua pagara uma dinheirama, nos dias de hoje seria +/- R$ 500,00 por pule de R$ 1,00) lá encontrando todos os nobres do Ducado de Piu-Piu.
Amigos, foi o maior carnaval da minha vida, fechei o 5ª. Avenida Show de quem eu já falei em outro relato e levei todas as moçoilas para brincar nos Bailes do Clube Royal que eram realizados no Cine Odeon (na rua da consolação) bebendo e pulando durante 4 noites espetaculares. Só voltei para casa na quarta-feira de cinzas de manhã, sem um tostão no bolso. Do dinheiro ganho só restava a parte que eu havia dado de presente à minha mãe no sábado, antes de sair para a farra.
Conto esta história para informar que essa foi a vez que mais ganhei dinheiro nas partas de um cavalo, ou melhor, de uma égua… e uma das poucas vezes que ganhei jogando nos cavalos.