Hoje é dia 14 de Abril de 2006, há exatamente 39 anos atrás, nesta mesma hora (18,30 hs), um jovem mancebo com 27 anos de idade, saia de uma sauna masculina onde tinha ido se preparar para estar em “total forma” e poder enfrentar o dia seguinte.
Tinha passado por um massagista uma vez que no dia anterior, durante uma noitada (sua última como solteiro), dançando, havia dado pequena torção no tornozelo. Nada de maior monta, mas…Prevenir sempre foi melhor que remediar.
Tranqüilo depois da massagem e da sauna, alimentado com as diversas asinhas de frango, da robusta salada de agrião, do saboroso peixe grelhado e das diversas cervejas geladas, lá se foi ele para a Rua Major Diogo, 307 onde residia e iria residir depois do enlace, por mais algum tempo.
Em casa, recebido por sua mãe, seu pai irmãos e primos, conversou com todos por alguns momentos, depois foi para o seu quarto no intuito de pensar no ato corajoso que iria protagonizar no dia seguinte.
Estava bastante consciente de que não seria um espetáculo teatral, seria uma cena da vida real, assim era preciso pensar, planejar todos os passos e gestos e, principalmente, calcular como deveria ser o seu procedimento diante das peças que, sem qualquer sombra de dúvida, estavam sendo preparadas por seus fiéis e inseparáveis amigos.
Nessas alturas como flashs cinematográficos, suas maldosas brincadeiras com casais nubentes foram surgindo, uma a uma, viu seu amigo Zinho (Luiz Loschiavo) tomando diversos copos de chopes misturado com óleo de rícino e em seguida saindo de viagem de núpcias para Aparecida com as diversas paradas obrigatórias “solicitadas” encarecidamente pelo noivo; viu sua prima Hilda abrindo a mala que pensava estar cheia de doces e guloseimas preparadas para sua degustação quando da viagem de Lua de Mel e se deparar com todas aquelas brincadeiras (de mau gosto para alguns) que ele havia preparado sub-repticiamente.
Sentiu naquele momento um forte calafrio a lhe percorrer a coluna vertebral e, o cigarro que estava entre seus dedos caiu quase lhe queimando o lençol.
Tentou imaginar que nada lhe aconteceria, mas não conseguiu mentir para si mesmo, lembrou que a promessa mais boazinha era de que todos os amigos iriam se colocar em alas nas escadarias da Igreja de N.S. da Consolação, empunhando garrafas de cerveja que à sua passagem pelo corredor espocariam e formariam uma cascata de espuma banhando os noivos e todos os demais membros da comitiva nupcial.
Tremeu, fechou os olhos e se entregou aos braços de Morfeu que lhe acolheu e o embalou durante toda à noite.
O sábado amanheceu lindo. Ele tentou viver aquele dia como qualquer outro, mas não conseguiu. Presságios ruins vinham atormenta-lo em todos os momentos.
Num certo momento o telefone (me lembro que o numero era 344011) tocou e atendendo ouviu seu tio João (seu padrinho de casamento) lhe perguntar a hora em que deveria ir busca-lo. Imediatamente recusou o convite e disse que iria sozinho para a Igreja. Encontraria o padrinho e a madrinha Sua tia Zazá no altar.
Chegada à hora fatal, ele vestiu as calças e a camisa, colocou as abotoaduras (chiquê da época), calçou as meias e os sapatos, colocou a gravata bem dobrada no bolso do paletó, colocou o paletó sobre os ombros e saiu, sozinho, lembrando-se que havia prometido não se casar se a noiva chegasse atrasada, e saiu para vencer a distância entre sua casa e a igreja numa jornada solitária.
Durante o trajeto, lógico tomou alguns conhaques para criar um clima e continuou andando, fez o caminho mais longo, seguiu pela Rua Major Diogo atravessou o Viaduto Major Quedinho, desceu a Rua São Luiz e entrando na Avenida Ipiranga passou pela porta das casas noturnas como se delas se despedisse. Na esquina da Rua Consolação com Avenida Ipiranga, colocou a gravata, vestiu o paletó e, nada vendo de perigoso, atravessou a rua e subiu, sobressaltado, as escadarias da igreja.
Lá dentro ficou sabendo que sua futura esposa já havia chegado e estava dando uma volta de carro esperando a chegada do noivo. Entrou no altar, disse o sim que o uniu a uma mulher por 32 anos de sua vida. Foi bom enquanto durou e hoje só restam estas lembranças, além dos filhos e netos que, lógico, são maravilhosos.
Ninguém lhe preparou uma patuscada, mas o medo que sentiu da véspera até a saída da Igreja, tinha sido exemplar, e como dizem os mais sábios, Pau que nasce torto morre torto…
Depois de alguns meses lá estava eu aprontando novamente com os casais nubentes da família, mas isso é outra memória e a contarei em outra oportunidade.