Memórias bixiguenses

Bela Vista nome fantasia do maior bairro de São Paulo, o BIXIGA, foi meu berço de nascença. Ali eu cresci e me tornei homem. Ali vivi lindos e nem tão lindos momentos.
Hoje, estou melancólico e nessa melancolia várias passagens da minha vivência afloraram na minha memória e, mesmo que de forma atípica, resolvi registrá-las para os anais deste site.
Lembrei-me da casa em que morei na Rua Major Diogo 307, bem em cima do bar mais famoso da classe artística, o “NICK BAR” tão cantado e decantado, e que tantas brigas gerou entre meu pai e o seu proprietário, por noites mal dormidas.
Lembrei depois do meu CINE REX, onde obrigatoriamente eu freqüentava, nas sessões das noites de domingo e de segunda-feira.
As domingos, depois de assistir o jogo pela TV, os Duques de Piu-Piu se dirigiam ao cine Rex para assistir à sessão dupla. Depois dela, nos dirigíamos até o Bar Líder onde deliciávamos fabulosos mistos-quentes. Os melhores do bairro garanto. Então, devidamente alimentados, saiamos para a noite, porque ela era ainda uma criança.
Na segunda-feira, invariavelmente, voltávamos para assistir aos dois novos filmes em cartaz. É, nessa época o cinema ainda era uma grande e poderosa diversão.
Lembrei-me que o gerente do Cine Rex era o “seu Farina” que com sua cara de avô bonachão, se fazia de distraído para que nós, moleques ainda, pudéssemos ter a “ousadia” de, numa corrida desenfreada, invadir os seus domínios e assistir aos filmes sem desembolsar os tostões que, claro, não tínhamos.
O NOME Rex sempre esteve presente na minha vida de “bixiguento”, e era no Bar e Bilha Rex que eu passava bons momentos da minha juventude. Era ali o ponto de encontro dos Duques de Piu-Piu todas as noites. Dali, saíamos para as baladas da época ou para as aventuras e namoros. Quando nada havia para fazermos, era ali que ficávamos jogando algumas partidas de bilhar ou sapeando partidas de profissionais do taco e, claro, aguardando as batidas policiais, que ocorriam, invariavelmente, todas as noites. Esse bar era ponto de vários elementos, bons e maus, bandidos e mocinhos, traficantes viciados e limpezas (que era nosso caso).
Todos se respeitavam e ali era um local de harmonia. Sem rotulações ou indiscrições.
Foi no Bixiga que presenciei um dos maiores incêndios da minha vida, ocorreu num Posto de Gasolina que ficava na esquina da Rua Manoel Dutra com a Rua Dr. João Passalaqua. As labaredas corriam lambendo as ruas até Rua Major Diogo. Só de lembrar sinto calafrios.
Lembrei ainda, das tardes segundas-feiras dos carnavais do passado, quando nos reuníamos entre as Ruas 13 de Maio e Marques Leão, para a formação do “Bloco dos Esfarrapados” que até hoje é tradicional do bairro. Sempre se fazia uma fantasia criticando algum fato político ou social. Uma das ultimas fantasias que bolei e usei foi a de “Cruzeiro Novo”, me vesti de bebezão, coberto de cédulas de Cr$. 1,00. Fui notícia de vários jornais.
Este era bairro que nasci e amei. Isso mesmo ERA, hoje, os novos tempos detonaram com meu bairro e pouco resta da sua historia. Até seu maior historiador, o Armandinho Pugliesi, já se foi para o andar de cima.
Só mesmo a lembrança vive para a eternidade.

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