Criança é fogo!
A imaginação criativa de uma criança é maior que tudo que se pode imaginar. Eu também fui criança, lógico, também gostei de ler histórias em quadrinhos. Adorava Mandrake, Superman, Capitão Marvel, Capitão Marvel Jr., o Homem de Borracha, Tocha Humana, O Príncipe Submarino, Roy Rogers, Zorro e Tonto, Almanaque do Tio Patinhas, Reco-Reco Bolão e Azeitona, Almanaque do Tico-Tico, e inúmeros outros personagens que povoaram meus pensamentos e sinhôs infanto-juvenis.
Aprendi a ler, como já tive oportunidade de contar, sob a mão rígida e exigente de Dona Tereza.
Depois, bem depois, foi só praticar, e eu pratiquei bastante. Eram livros em demasia. Na época frequentei a Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, na Vila Buarque, Rua General Jardim, e tinha de, antes de qualquer atividade infanto educativa ali oferecida, frequentar a sala de leitura e ali permanecer por, no mínimo, uma hora.
E eu assim fazia, era uma hora diária que eu viajava pelos livros que Dona Ivonete, responsável pela sala, nos sugeria. Depois, desobrigado das leituras, eu passava a frequentar a sala de revistas, onde devorava os mais recentes gibis, a sala de fantoches, onde me iniciei na arte do teatro de fantoches, a sala de pintura, onde exercitei meus dotes de pintura e desenho. Essa instituição foi de muita valia na construção da minha personalidade. A ela devo e agradeço minha estrutura cultural.
Este preâmbulo se fazia necessário para melhor entendimento do relato memorial que pretendo explanar nesta crônica depoimento. Assim sendo, vamos regredir aos meados dos anos 50, na velha e tão decantada casa da Rua Augusta, 291, cenário vivo de minha infância.
Nesta oportunidade estava eu, o menino Miguelzinho, dentro de meu, ou melhor, nosso quarto, pois era na realidade o quarto meu, de meu irmão e dos nossos pais, era de manhã, eu deitado em minha cama "Faixa Azul", devorando diversas revistas de história em quadrinhos.
A certa altura, depois da leitura de uma emocionante, e por que não dizer emochocante, aventura do Capitão Marvel, não mais me contive, pulei da cama, alcancei uma toalha de banho que pendurada estava na porta do quarto, em um gancho ali instalado exatamente para isso, amarrei ao pescoço, ganhei o corredor da casa que era extenso e ia da entrada até a porta de saída da cozinha, sem qualquer obstáculo.
Tinha esse corredor uma extensão de uns dezoito metros de comprimento, ao seu fim, se aberta estivesse a porta da cozinha, tínhamos um pequeno patamar que dava acesso à escada que levava ao quintal, e descia à direita da porta da cozinha.
Esse pequeno patamar era limitado à frente da porta e, depois de um pequeno espaço de um metro, por uma mureta de resguardo. No quintal, abaixo dessa mute, estava localizado o tanque de lavar roupas, enorme e resistente como soe acontecer naqueles tempos.
Bem, voltando ao relato, ganhei o corredor, me certifiquei de que estava totalmente livre, num alto e sonoro grito bradei a palavra mágica: SHAZAN!!!, saí correndo e, antes de ganhar o patamar da escada da cozinha, saltei convicto de que poderia alçar vôo…
Não voei, apenas e tão somente ganhei o espaço e fui cair dentro do tanque que, para minha sorte, estava cheio de água e de roupas que estavam sendo lavadas por minha mãe.
O susto dela foi tanto ou maior que o meu, mas a recuperação dela foi mais rápida do que a minha volta da estupefação. Foi o tempo bastante para ser acordado pela mão da Dona Tereza, que empunhando um tamanco (a primeira coisa que lhe chegou às mãos naquele momento) me aplicava uma tremenda e dolorosa surra.
A minha satisfação na história foi saber que, mesmo não tendo voado, havia personificado meu herói, o Capitão Marvel.
Coisas de criança, surras de boa mãe!
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