Toda cidade tem seu memorialista, aquele obstinado que se especializa em reviver velhas lembranças; em remexer baús antigos; em extrair, às vezes quase que a fórceps, histórias perdidas, recriando mosaicos e trazendo à tona fatos e acontecimentos de um valor até então insuspeitado. A grande São Paulo é claro, já possui uma infinidade de memorialistas, como Ademir Médici, Roberto Botacin, Holando Lacorte, Evangelista Bazzane – os cronistas deste site – e outros mas creio que ainda falta um trabalho mais amplo, talvez um maior envolvimento do poder público.
Falando em memorialistas, acima citei Holando Lacorte de cuja autoria tive o prazer de ler dia desses, confesso que quase por acaso, o livro, editado em 1985, "Memórias de um andreense". Não se trata de nenhum clássico da literatura brasileira, mas sim, de um livrinho delicioso (que o termo "livrinho" não seja entendido como pejorativo, o caso é que o livro é realmente bem fininho) que me comoveu profundamente. O autor nos leva a um passeio pela Santo André antiga e ficamos sabendo que um dia existiu uma biquinha, de águas límpidas, no Primeiro de Maio; que havia uma boliviana, se não me engano (não tenho mais o livro em mãos) chamada Chopa, que exercia pros lados de onde hoje está a Firestone, com o consentimento e a conivência do marido; somos informados da existência de um burro inteligente que descia sozinho a Oliveira Lima, puxando uma carrocinha, e ia buscar a carga na estação ferroviária; descobrimos que um só guarda noturno, o Leopoldão, fazia a ronda da cidade acompanhado do cachorro Togo; aprendemos que a primeira indústria importante a instalar-se na cidade foi a Ipiranguinha; acompanhamos o memorialista e seus amigos pelos morros e capoeirões de então (eles costumavam chegar até o Pilar) e, talvez na confidência mais emocionante do livro, ele nos conta que quando encontravam um ninho de passarinhos contendo ovinhos jamais diziam ovinhos, diziam pedrinhas que era p'ra enganar as cobras, pois, se estas ouvissem falar em ovinhos, viriam chupá-los. Por este exemplo pode-se ter uma idéia da candura ímpar que envolve este livro, desde a simplicidade da capa até o poema, dedicado ao rio Tamanduateí, que fecha a narrativa.
Foi com enorme contentamento que li este livro no qual Lacorte leva a sério, extraordinariamente a sério, a frase de Cora Coralina, escolhida como prólogo de seu livro, e não permite que o "esquecimento passe tudo a raso".