Vocês já ouviram falar no jargão João sem braço, não é? Pois bem, isso significa um sujeito que usa a malandragem para sair fora de algo que tenha feito, ou então mentir de forma descarada. Mas também, na realidade, existia o sem braço fisicamente. Não precisa ter esse nome. Com outro nome qualquer, que não tenha um braço, logo a mente vai ao João.<br><br>Eu iniciei minha carreira futebolística na várzea, aos dezesseis anos (1956), jogando na Vila Olímpia. Sonhava em ser ponta direita igual ao Julinho da Portuguesa de Desportos. Aquela flecha rápida em zig-zag, driblando adversários, marcando gols, ou então passando a outro para marcar. Se não desse certo como ponta direita eu seria um centro avante, como Aquiles do Palmeiras ou Baltazar do Corinthians. O primeiro como finalizador dentro da área, ou então o grande cabeceador, chamado de cabecinha de ouro, com direito a música composta por Alfredo Borba, gravado por Elza Laranjeira. Podia também ser um centro médio clássico como Bauer do São Paulo, mas o que eu gostava mesmo era de fazer gols.<br><br>Já em 1959, jogando pelo Texas, do Brooklin Novo (divisa com a Vila Olímpia), Paulão (Paulo Pacola), diretor esportivo, veio com a camisa número dois e disse toma. Mas Paulão, eu sou ponta direita! Com essa cintura dura não vai ser no meu time. Ponta tem que ter ginga, e correr mais. Trate de beber menos para ter mais fôlego. De zagueiro, não vai precisar correr muito. É só marcar o ponta esquerda em cima que já está bom.<br><br>E não é que ele tinha razão? Fiz uma boa partida e ele gostou. Ao fim do jogo veio sorridente. Tá vendo?! Achei a sua posição, vai crescer ainda muito. Logo, logo vai pegar o primeiro quadro.<br><br>Então, o ex-sonhador ponta ou centro avante era um zagueiro firme, cujo forte era o calço na bola evitando o chute final do adversário.<br><br>E assim foi. Daí por diante eu era o zagueiro confiante jogando pelo Flamengo da Vila Olímpia, time que a garotada tinha levantado depois de muitos anos parado, e que os adultos pegaram de novo.<br><br>Num domingo pela manhã, o primeiro do ano da graça de 1960, precisamente dia 10, dia em que o Palmeiras se tornou super campeão paulista de 1959 ganhando do grande Santos de Dorval, Jair, Pagão, Pelé e Pepe, por dois a um, fomos jogar contra o Palmeirinha do Indianópolis. Ao entrar em campo tínhamos duas preocupações: entrar com o pé direito e fazer o sinal da Cruz. Depois, procurar o ponta esquerda para saber que ia marcar.<br><br>E lá vou eu à procura do número onze adversário. Quando vejo, está lá se aquecendo um rapaz alto, magro, com uma diferença: não tinha os dois braços. Nos ombros, três ou quatro dedinhos. Gelei. Meus Deus como vou marcar esse jogador?, perguntava a mim mesmo.<br><br>Quando alguém o chamou, vi que ele tinha o mesmo nome que o meu, Mário. Fui cumprimentá-lo e, como não podia dar-lhe a mão, um tapinha nas costas substituiu o cumprimento normal.<br><br>Pensei, vou marcar sob zona. Ou seja, a curta distância e olhar somente a bola. Tomei um passeio do cara. Tinha medo de encostar nele, mesmo porque dar botinada era comigo mesmo, principalmente quando o ponta era "ciscador". Estava acostumado a arrumar confusão, levantando pontas esquerdas a dois metros de altura. Mas com Mário sem braço, não. Ele era um cara especial. Afinal, chamava Mário.<br><br>Quando o jogo acabou fiquei aliviado, nem me lembro do placar. O que mais me marcou foi que Mário sem braço saiu inteiro.<br><br>Um dia, estando na padaria Samaro do seu Juca, comendo aqueles sandubas com pão quentinho aos domingos, no fim das jornadas de paqueras, um negro alto e forte se pôs a conversar comigo. Estava pedindo doador de sangue para um familiar. Doar sangue é comigo mesmo, disse. Sou doador de sangue da Colsan. Tenho até carteirinha. E mostrei a ele. Sangue tipo A-B. Então marcamos para ir sábado seguinte no hospital São Paulo (Vila Mariana).<br><br>Conversa vai, conversa vem, ao saber que morava ali por perto da Vila Guarani, disse que tinha jogado contra o Palmeirinha, que tinha o campo em frente à casa do Vicente Feola. Como gosto de contar histórias, fui falando mais que a boca:<br>- Negrão, peguei um ponta esquerda esguio, magro e sem os dois braços, e ainda com meu nome. Tomei um puta passeio, mas não dei uma botinada nele. Ele saiu ileso.<br><br>O cara riu muito, e quando cessou o riso ele disse: Esse Mário que você está se referindo é meu irmão.<br><br>Então, acreditem, é verdade. Joguei contra um ser humano sem os dois braços.<br><br>e-mail do autor: [email protected]