Mário era um sujeito de boa cultura, morador no bairro do Itaim Bibi, trabalhador e honesto. Um sujeito reservado, introspectivo, de pouca fala que também não perturbava ninguém. Não bebia e, se fumava, era pouco. O tanto para não se tornar viciado. Ao contrário dos irmãos, não jogava futebol, porém gostava de assistir. Era um cara boa pinta, muito paquerado pelas mulheres. Andava pelos bares do bairro, não por causa da bebida, mas para conversar com os amigos, que não eram muitos.<br><br>Aos poucos, notou-se que Mario estava um tanto “jururu”, mal falando com as pessoas. Soube-se que tinha perdido um grande amor. Aquele amor que as pessoas sempre têm na cabeça, mas, por timidez ou falta de coragem de se declarar, e fica engasgado na garganta. Não se soube quem era a mulher, pois ele nunca foi visto com ela, mas que o problema era mulher veio através de alguém da família.<br><br>Os amigos tentavam animar com conversas alegres, mas ele foi se afastando de todos e passou a ser aquele homem angustiado que não se abria com ninguém. Aos poucos, Mario foi abandonando sua casa, porque sua família também o abandonara. Ao contrário do povo que se preocupava com ele, a família não estava nem aí.<br><br>A rua passou a ser sua morada; o balcão de um bar ou a mesa era onde ele comia ou bebia caso alguém pagasse. Daí passou ser apenas um etílico, "a bebida matava suas angustias" Dinheiro ele não tinha para nada então pedia a que estivesse por perto uma pinga. Amigos de verdade não davam bebida alcoólica, um pingado com pão era oferecido, mas a pinga era sua preferência. E assim ele foi definhando.<br><br>As mulheres, quando passavam por ele, derretiam-se de dó:<br>- "O que será que aconteceu com esse rapaz? Era tão bonito, tão cheio de vida!” – dizia quem o conheceu anteriormente. <br><br>Por estar sempre na rua com sol, chuva ou sereno, ele ganhou um apelido: “Mário Brisa”. Roupas sujas, barba sempre por fazer, o sapato já não entrava, era um verdadeiro chinelo em seu pé por causa da grossura do casco, todo rachado.<br><br>Ele tinha consciência de que estava um bagaço, e ainda tinha forças para pular o muro da casa de seu cunhado Dondoca, que morava na travessa do Porto, e roubar a calça que estava no varal.<br><br>Quando Dondoca deu por falta da roupa, foi à procura de um possível ladrão de varal, coisa muito comum naquela época no Itaim. Durante a procura deparou-se com Mario Brisa na Rua João Cachoeira, esquina com a Rua Heloísa, tentou se esconder no barranco do córrego do sapateiro, mas foi obrigado a tirara a calça e devolver.<br><br>O tempo ia passando e Mario cada vez pior, além da sujeira ele já apresentava machucados, na verdade estava bichado, Era comum vê-lo sentado na calçada da Kopenhagen, um dia ele estava deitado era o crepúsculo de um ser humano.<br><br>Uma ambulância do “Samdu” foi chamada e os enfermeiros não tinham coragem de pegá-lo para colocar no veiculo, era o nojo dos seres humanos por um moribundo. E naquele “vai não vai” surge Vicente batateiro que, indignado, fez um autêntico discurso:<br>- “Eis aqui um brasileiro as portas da morte sem alguém com piedade para tentar salvá-lo. Alguém me ajuda a colocá-lo na ambulância?”<br><br>Um taxista, e um catador de latas se apresentaram para ajudar. E lá se foi uma lenda morta que a vida criou para o nada.<br><br><br>E-mail: [email protected]