Olho para o relógio, um relógio escondido no bolso, pois gente do interior esconde o relógio no bolso quando vem para a capital. Quase meio-dia, falta uma estação, enfim desço do metrô, estou no terminal do Tietê, quando chego perto das catracas, avisto o mar de cabeças.
Um sábado ensolarado, fim de ano, depois de dia de pagamento, na gigante metrópole São Paulo. Nada de anormal, porém meus interioranos olhos acostumados a pequenas paisagens, a calma da pequena cidade, viram-se amedrontados diante de um denso e extenso mar de cabeças. Como um surfista a medir e projetar seu deslizar sobre as ondas, meus olhos foram adentrando ao mar, à medida que minhas pernas, apressadas pernas, afundavam-se na imensidão do mar de cabeças. Uma cena impactante, porém tão bela, tão brasileira – nem Tarsila do Amaral em sua fantástica obra de diversos semblantes, poderia expressar a diversidade do mar de cabeças. Tantos cabelos, tantos olhos, tantos semblantes, tantas cores, tantos sonhos, tantas vidas, tantas realidades.
São Paulo impressiona por sua esmagadora quantidade do diverso, por sua exponencial pluralidade, a forma como tudo deforma, reforma, transforma nesta cidade. Uma cena de um sábado de manhã em um estação de Metrô seria, de longe, o mais belo cartão postal do Brasil.
Estampando como destaque, a diversidade, a forma, a cor, a mistura deste profundo Mar. O surfista sofre, se arrisca, pensa dominar as ondas, vai virando sua prancha, cola sobre o movimento. Ele se ajeita diante do vento, por instantes presencia o encontro entre as águas e o ar, perde-se na vastidão do azul, feito o rapaz do interior. Ambos querem descobrir, querem atrever-se a dominar, sentem-se atraídos pelos movimentos do mar, até que o surfista caí, o menino do interior esbarra em alguém, num golpe de realidade. Um recolhe a prancha, o outro baixa a cabeça, nasce um sorriso a meia boca, mas no peito explode a felicidade.
O surfista sai balançando os cabelos e correndo para a areia, o menino do interior, arrisca olhar para trás, e quando voltam para casa, dividem o mesmo sentimento: o respeito, o mito, mas a intensa paixão pelo mar. Um sobre as ondas e outro em meio às cabeças, sabem que é preciso cuidado, pois o mar que diverte é o mesmo que implacavelmente afoga, sufoca e que pode custar a vida. Mas para os olhos é um fascínio se perder em meio imensa dimensão, apreciar a obra da natureza.