Manias e superstições

Há coisa de cinqüenta anos ou mais vivíamos na base de muita superstição. Muita coisa era feita ou desfeita devido a essa mania de superstição.<br>Deixar de ir à missa aos domingos de festas e guardas, era coisa que se igualava a um pecado mortal. Uma coisa que a igreja martelava nos ouvidos do povo. E que jamais saia dos costumes das pessoas e perdurava pela vida inteira.<br>A coisa funcionava de tal jeito que as pessoas ficavam até doentes caso se esquecessem de fazer algo ou fizessem ao contrário do que era prognosticado.<br>Deixar de se confessar e não poder tomar a hóstia no dia da missa, devido a um simples esquecimento da confissão, era motivo de muitos socos no peito, a dizer: pequei, pequei! Perdoe-me senhor!<br>Outra norma da igreja era se comungar depois de três horas em jejum. Uma vez, uma senhora que se esqueceu e tomou café na hora de ir para a missa,<br>só percebeu lá que não daria as três horas necessárias e indagou ao padre o que deveria fazer, ele disse: a senhora não esta em jejum, se tivesse tomado água a senhora estaria em condições de se comungar… Portanto, só vai poder comungar na missa das dez horas, ou do meio dia. Pronto. Lá foi a senhora foi para os socos no peito.<br>Na semana Santa era de um respeito a toda prova. Na sexta feira então, não se podia fazer nada. Jogar bola era estar chutando a cabeça de Jesus, dizia minha mãe. Na sexta feira da Paixão do ano de 1951, meu pai e minha mãe foram ver a casa que estavam comprando no Brooklin Novo. O negócio já estava fechado. Pegos de surpresa Seu Manoel e dona Yolanda ficaram sem jeito, pelo fato de a casa estar toda desarrumada. Dona Yolanda se desculpou com minha mãe: olha dona Orlinda a senhora me desculpe, mas hoje é sexta Feira Santa e nós não fazemos nada nesse dia, nem a casa eu varri.<br>Comer carne na sexta feira santa nem pensar. Coisa que perdurou por anos, porque não dizer séculos? Até que o Cardeal Arcebispo de São Paulo, Don Paulo Evaristo Arns, nos anos 1980, achou que tinha que liberar a carne, para que muita gente não ficasse privada de comer por não ter outra opção. Mas ai ficou a tal superstição. Será que como ou não? Os mais fanáticos ficaram na dúvida. Se eu comer, irei para o inferno?<br>A religião era uma coisa tão importante que se numa reportagem de jornal, revista, radio ou televisão não fosse dito que estavam presentes a um evento qualquer autoridades Civis, Militares e Eclesiásticas, a coisa não funcionava direito na chefia da redação.<br>Mas superstição havia em qualquer lugar. No futebol, caso um jogador não fizesse o sinal da cruz ao entrar em campo, ele ficava cabreiro, achando que daria tudo errado no transcorrer do jogo.<br>Até eu quando jogava bola tinha esse medo. Outra coisa que eu tinha que fazer na hora do jogo era pegar a bola logo no início, senão a coisa ficava feia.<br>Eu era goleiro, e nessa posição joguei em vários clubes de futebol do Itaim, Vila Olímpia e Brooklin. Antes de o jogo começar, eu falava com meus zagueiros para que logo de cara atrasassem a bola para mim, para eu ter um contato com ela.<br>Era só a bola chegar em minhas mãos, dava um alívio grande, parecia que descarregava todo o peso da responsabilidade que o jogo oferecia.<br>Nos Estados Unidos, ninguém saia de casa sem olhar o horóscopo. Como tudo que é bom para os Estados Unidos, é bom para o Brasil, pronto. Foi um tal de aparecer horoscopistas nas emissoras de radio.<br>O mais famoso aqui no Brasil era Omar Cardoso. “Bom dia, mas bom dia mesmo!”, era o seu jargão inicial do programa. Muitas cartas ele recebia. A maior parte era de mulheres grávidas, que queriam saber se ia ter um menino ou menina.<br>Omar Cardoso perguntava: a senhora sabe quando ocorreu a concepção? Dependendo dos meses de gravidez, a senhora sabe o início da concepção.<br>Outra pergunta comum era: será que o filho(a) será feliz? <br>Omar Cardoso não perdia tempo, e já ia dizendo: diga a data do nascimento, a hora e se era ano bissexto. Dependendo da lua seu filho ou filha seria assim ou assado, dizia o grande Pitonizo dos anos 1960-70, falecido em 1978. E o povo acreditava piamente. Tinha gente que até brigava em favor do radialista.<br>Em 1963, por ocasião do Campeonato Paulista de futebol, a disputa era ferrenha entre Palmeiras e São Paulo. O São Paulo estava na frente do Palmeiras em pontos perdidos, e no último jogo do primeiro turno o São Paulo ganhou por 3×1 numa jornada brilhante de um jogador Paraguaio chamado Cecílio Martinez. Foi o bastante para que um torcedor mandasse uma carta para Omar Cardoso perguntando quem seria o campeão paulista de 1963. Tinha ainda o segundo turno todo pela frente, e Omar Cardoso disse que não diria o nome, mas ele sabia de antemão quem seria o campeão paulista. “Vou dizer apenas as cores do clube. Meu caro ouvinte: o campeão paulista deste ano tem as cores Vermelha, Preta e Branca.”<br>O segundo turno começou. O palmeiras achou que o técnico Geninho não estava bem, o mandou embora e contratou o Silvio Pirilo.<br>Logo no início do segundo turno em outubro, o Palmeiras goleou a Portuguesa de Desportos por 5×1. Foi a reestréia de Fiori Gigliotti, transmitindo jogos de futebol péla radio bandeirantes. E Pedro Luiz, e Mario Moraes, estreavam na radio tupi.<br>O campeonato transcorreu numa luta titânica, e o Palmeiras invicto no segundo turno, foi descontando, até que na penúltima rodada contra o Noroeste de Bauru, no Pacaembu, o Palmeiras se tornou campeão paulista, vencendo o jogo por 3×0. Uma faixa enorme apareceu no gramado: “Os astros não mentem jamais. Mas os verdadeiros astros estão na sociedade esportiva palmeiras”.<br>No dia seguinte Omar Cardoso, sorrindo lia no jornal a beira do microfone já na radio Excelsior a inscrição que constava na faixa.<br>Depois que o homem voltou da lua em 1969, Omar Cardoso conseguiu sei lá onde e como, a pedra da Lua.<br>Era um amuleto que todos deviam ter em sua casa dizia Omar. Muita gente comprou. Inclusive minha irmã. Uma pra ela e outra para minha mãe.<br>Agora paralelamente às superstições, as manias eram muitas. Não tome leite com manga que você morre na hora. Pinga com pepino então é um veneno mortal. Cuidado para não tomar banho depois do almoço, antes de duas horas depois, que dá congestão.<br>Para as mulheres então o perigo estava em tomar banho e lavar a cabeça estando menstruada (os homens diziam paquete). Cuidado! Dá a tal suspensão, você pode morrer na hora.<br>Olhar no espelho depois de comer não é bom. Toma cuidado, você pode ficar com a boca torta. Aconteceu com meu irmão José. Minha mãe tinha certeza que ele depois do almoço foi pentear o cabelo. Ele que tinha um cuidado muito grande com o seu penteado Jaquetão Abotoado. Quem tinha esse tipo de cabelo era vagabundo, cafajeste e desocupado dos anos 1950. Se bem que meu irmão não era nada disso, apenas tinha essa mania.<br>Passar por debaixo de escada então era um caso sério. Deus me livre passar por debaixo dela. É azar para o ano inteiro. Um dia no centro da cidade de São Paulo um comerciante colocou uma escada aberta de fronte a sua loja bem próximo à guia da calçada. Para não passar por baixo dela ou ter que ir parar no meio da rua, as pessoas quase entravam na loja dele. Mas por debaixo da escada ninguém passava. Eu mesmo jamais passava. <br>Um dia, não muito tempo atrás, acabei com essa bobagem. Passei a fazer questão de passar por baixo dela, e não aconteceu nada demais comigo. <br>Gato preto logo de manhã era motivo para se preocupar o dia inteiro. E sexta feira 13? Só de pensar tinha gente que tremia. Por outro lado uma borboleta era motivo de satisfação. Tanto a borboleta como o gato eram bons palpites para o jogo do bicho.<br>Quanto à mania de chamar alguém por apelido, era outra coisa que as pessoas tinham preocupação. Nunca mudar, usar sempre o mesmo.<br>Burro terá que ser sempre burro. Jamais, chamá-lo de analfabeto.<br>Coió será sempre coió, nunca bobo. Assim como cafuna (hoje dito cafona), não ser mudado para desarrumado(a) ou de uso de roupa sem nexo.<br>Pessoas de nível intelectual tinham o costume de dizer que esse tipo de mania e superstição era coisa de pobre, de gente sem instrução, que é facilmente levado por espertalhões. Ai o compositor de musica brasileira, escreveu: de todas as manias que eu tenho, uma é gostar de você.<br><br>e-mail do autor: [email protected]