"MANGE, QUEC I LIGI"
As três expressões acima, oriundas do dialeto barês de Polignano a Mare, província de Bari, região das Puglias, sul da Itália, são de uso corriqueiro… Meus ouvidos, tão habituados a estas introduções, que não davam a mínima importância. (no final desse relato, vou dar a tradução).
Minha mãe, zelosa e cuidadosa do bem estar dos filhos, tem pelos outros membros da natureza o mesmo cuidado e preocupação, sejam minerais, vegetais, animais ou qualquer outro ser, oriundo de outro planeta.
Com nove filhos, preocupada com tudo, os afazeres e os cuidados que cinco mulheres e quatro homens e mais meu pai, Bartholomeu, do comércio, Felícia estava proibida de ficar doente.
Ex-operária da fábrica de tecidos do Matarazzo, quase analfabeta, tinha pelos filhos um amor sem precedentes, como quase toda família de italianos do Braz. Saúde boa, além de lidar com limpeza da casa, preparo de almoço, janta, café da manhã, fogão a lenha, sem geladeira, lavar e passar (agora com auxílio das filhas), nos fins de semana, era um tal de pezza-dolci, piccicatela pilu zuchero e scagdete, cagzzoune di ricota scandi, carna maccinete, o pi cipola, richitela, fuzzili, cime-di-rape etc. (Trdução: torta de ricota, taralas com assucar e escaldada (salgada), torta de ricota-forte, de carne moída, com cebola verde, massa orelhinha, fuzzili, verdura, etc.)
A inata observância desses afazeres são frutos não de uma educação rígida, mas espontânea, natural. Por ter nascida numa pequena cidade da Itália, essencialmente agrícola, não ter participado das atividades por ser ainda pequena, chegando a São Paulo foi logo aprender a trabalhar no tear. Cresceu no bairro do Braz, formosa, linda, casou já direcionada a manter um lar, ter e criar filhos e amar seu marido. Conseguia encontrar tempo e lugar pras suas criaturas aladas, um pato, galinhas e um canteiro onde tinha um pouco de verde, um pé de figo e um de mamão.
Por ser menor, além da escola de Dona Mafalda, no Lameirão, minhas obrigações em casa eram: engraxar todos os sapatos da casa, carregar lenha da fábrica de formas pra calçados da Rua Monsenhor Andrade (do pai do Rafael, craque corinthiano roubado do Palmeiras), encerar o assoalho da casa, ajudar minhas irmãs Maria e Carmela a pespontarem calçados, (trabalhavam em casa, vivas ainda, graças a Deus). Ganhava o suficiente pra entrada da matiné do Glória, 1,50 entrada e quinhentão pra pipoca americana, aquelas grudadas, redondas.
Um dia, minha avó materna, a Nonó, a mesma que quando me via em sua casa dizia: mu vaine u uomine du pena" (“aí vem o homem do pão”, de tanto que eu gostava e gosto, ainda, de pão), estava em visita, morava lá perto, e me viu sentado no bidê do banheiro do quintal, com a porta aberta, fazendo minhas necessidades; nunca ia ao banheiro sem levar um gibi ou qualquer coisa pra ler, como faço até hoje. Especificamente nesse dia, tinha preparado um belo sanduíche de tomate com sal e azeite, num papaccilo (bico do filão de pão feito em casa) e não deixei por menos: obrava, lia e comia. A Nonó, um amor de vózinha, olhando me disse em doce e suave polignanês: "mange, quec i ligi" (come, caga e lê).
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