Mamãe, já sei ler!

Memória! Que incrível capacidade humana. Já dizia o poeta: "recordar é viver novamente".

Tenho incríveis lembranças da minha infância vivida aqui nesta capital. Uma delas me veio à cabeça neste momento. Meu pai era diretor de uma laminação de metais que ficava ao lado da Fábrica de Brinquedos Estrela, no Belenzinho. Portanto era fácil para ele me presentear com os brinquedos lá produzidos.

Um deles foi um pequeno abecedário de plástico, com as letras coloridas. O A em vermelho, o B em verde, o C em amarelo e assim por diante. Lembro-me que viva perguntando a meu pai que letra era aquela que estava em minha mão… e ele pacientemente respondia.

Nasci em novembro de 1949, e no ano seguinte foi o lançamento da televisão em São Paulo. Os Diários e Emissoras Associadas, sob o comando de Assis Chateaubriand, trouxeram essa incrível invenção para esta cidade. E meu pai logo tratou de adquirir um aparelho.

Naquela época a programação era escassa. A TV funcionava apenas por um pequeno período. Mas eu, quase um bebê, ficava fascinado com aquelas imagens e informações. Não descolava da frente do aparelho quando começava um programa infantil apresentado pela falecida atriz Aparecida Baxter, ou pela atriz mirim Sonia Maria Dorse. Se não me engano era um programa patrocinado pela Refinaria de Açúcar União e se chamava Pim-Pam-Pum, com uma programação repleta de calouros infantis e desenhos animados.

Morávamos na Vila Mariana, e minha avó (mãe de meu pai) na Lapa. Semanalmente minha mãe me levava para lá, fazer uma visita. Tomávamos o ônibus na Domingos de Morais, descíamos na Praça da Sé. Caminhávamos então até a Praça do Patriarca, subíamos num outro ônibus que seguia até a Lapa. Os coletivos municipais serviam como veículo de mídia, pois ostentavam na divisão entre o teto e as janelas uma série de cartazes que faziam propaganda de várias mercadorias.

Numa dessas visitas, quando eu estava com três anos e meio, entramos no ônibus na Praça do Patriarca, e antes que este desse partida para atravessar o Viaduto do Chá, eu (de mãos dadas com minha mãe) me dirigi a ela dizendo que sabia ler. Mamãe, achando que eu estava me exibindo, pediu que eu lesse o cartaz que estava acima da janela. Li, dizendo que estava escrito Café e Açúcar União. Ela imediatamente respondeu, dizendo que isso eu via todos os dias no programa de televisão e me pediu para que eu lesse o cartaz do lado, no que respondi prontamente: "Asmalívio" (um antigo remédio para asma). Mamãe tomou um susto, pois nunca podia ter imaginado que eu já estava lendo. Asmalívio, uma palavra difícil para uma criança ler.

Deu o sinal para descermos e saímos ainda na Praça Ramos de Azevedo. Ela logo se dirigiu a uma banca de jornais e comprou um exemplar para testar minha leitura… Sim!!! Eu estava lendo. O susto foi tão grande que minha mãe mudou o itinerário. Ao invés de irmos para a Lapa, nos dirigimos para o consultório do meu pediatra, que ficava na Rua Vergueiro. Minha mãe queria saber o que era aquilo. Sua compreensão não chegava a tanto. Qual seria o milagre?

Quem acabou elucidando o mistério foi meu pai, que à noite, ao chegar do trabalho e ser comunicado do fato, ligou a todas as sequências: o abecedário de brinquedo, a televisão… é claro que o menino ligou o B com o A igual a BA sozinho. E tudo entrou em seu eixo.

Velhos tempos, belos dias!

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