Mais um talento brasileiro no céu

Era 21 de abril. O ano, 1920.<br>Nascia na cidade de Salto, bem próxima a São Paulo, esta grande figura que viria a ser um dos maiores cineastas brasileiro e mundialmente famoso: Anselmo Duarte.<br><br>Menino pobre, último filho de um casal que após os seus poucos oito meses de nascimento, se separou. A mãe, costureira, trabalhou muito para poder sustentar os filhos. Ainda adolescente, o menino saiu de Salto, onde chegou a exercer a profissão de pequeno engraxate, para um grande centro como São Paulo.<br> <br>Dentre outros tantos empregos que teve, o jovem Anselmo, acabou transferindo-se para o Rio de Janeiro, onde ingressou como técnico no mundo da cinematografia. Alguns bicos aqui e lá, como se diz por aí, fez sua primeira participação em uma película como figurante, no nunca terminado e nem exibido “It’s All True” de Orson Welles (1942).<br><br>Ai nasceu a paixão e despertou-se o talento do rapaz, que passou a integrar o elenco de filmes de produtoras como a Cinedistri e posteriormente a Atlântida. Nesta última chegou a galgar o posto de maior galã do cinema brasileiro, fazendo par romântico principalmente com uma atriz, que na época era conhecida como a namoradinha do Brasil: Eliana Macedo. Ali já começava a pipocar o talento do jovem. <br><br>Introduziu as famosas cenas de brigas que marcaram a vida da chanchada brasileira. Ele chegava a dirigir cenas de briga em obras assinadas por outros diretores, cenas que abrilhantavam estes filmes.<br><br>Fim dos anos 40 e início de 50, Franco Zampari ampliava a produção de arte cênica iniciada com a fundação do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Zampari, tentando fundar uma verdadeira indústria de cinema em São Paulo, inicia o ciclo da Cinematográfica Vera Cruz, mas precisava de um galã de destaque. O perfil de Anselmo Duarte se encaixava perfeitamente. Importado do Rio, já como galã e com um contrato que deixava os outros atores fascinados, por ser um emprego muito bem pago, Anselmo participa de filmes importantes como: “Tico Tico no Fubá”, onde ao lado de Tônia Carrero interpreta o compositor Zequinha de Abreu, papel muito elogiado pela crítica. Ainda na Vera Cruz participou de importantes filmes como “Apassionata”, “Veneno” e o importantíssimo “Sinhá Moça” numa forte interpretação do abolicionista Rodrigo.<br><br>Em 1957 escreveu, roteirizou, dirigiu e atuou o filme “Absolutamente Certo”, onde no papel de do linotipista Zé do Lino, atuou e dirigiu atrizes como Dercy Gonçalves e Odete Lara.<br><br>Sua grande experiência cinematográfica fez dele um profundo conhecedor da arte. Por atuar na Vera Cruz, freqüentando incessantemente os bastidores da indústria cinematográfica, praticamente estagiou com diretores como os importantíssimos Chick Foyle e Adolfo Celi, transitando entre os melhores operadores de som, iluminadores, diretores de fotografia e cortadores, editores e mixadores do cinema brasileiro da época. Todos eram famosos profissionais importados de países com Inglaterra e Itália por Franco Zampari.<br><br>Atuou, produziu, roteirizou outros tantos filmes. Em seu currículo constam seja como ator, produtor, escritor ou editor, obras como “Amei um Bicheiro”, “Depois eu Conto”, “Carnaval em Marte”, “Madona de Cedro”, “Quelé do Pageú”, “O Caso dos Irmãos Naves”, “Veneno”, Vereda da Salvação” “Independência ou Morte”e “Um Certo Capitão Rodrigo”.<br><br>Mas acabou se tornando um diretor de carreira dirigindo: Absolutamente Certo”, “Vereda da Salvação”, “O Crime do Zé Bigorna”, “Um Certo Capitão Rodrigo”… tendo até dirigido o Rei Pelé (do futebol), no filme “Os Trombadinhas”. Mas a mais importante obra foi o “Pagador de Promessas” (1962), filme que trouxe o maior e destacado prêmio do cinema, “A Palma De Ouro”, para o Brasil.<br><br>“O Pagador de Promessas” lhe rendeu um prêmio, mas também grandes inimigos, tendo sido prejudicado por críticas infundadas e uma antipatia declarada pelos integrantes do “Cinema Novo Brasileiro”, que surgia na época.<br><br>Ainda hoje, no Bexiga, em frente à Câmara dos Vereadores, existe uma padaria que para homenagear o fato, leva o nome do prêmio recebido por Anselmo.<br><br>Lembro dele ainda quando morava em Cerqueira César, passeando incógnito pela praça da Biblioteca Municipal Infantil, nos arredores da Dr. Vila Nova.<br><br>Aos 89 anos, em decorrência de um AVC, morre este homem simples, de sotaque quase interiorano (da Salto que nunca mais esqueceu), que galgou fama nacional e internacional.<br><br>Um luto para São Paulo, um luto para o Brasil e para nós brasileiros. Um alerta para aqueles que desvalorizam o produto nacional, principalmente nos dias de hoje quando a cinematografia brasileira começa a dar as suas primeiras manifestações de deslanche.<br><br>Vá em Paz, Anselmo! Que Deus acolha sua alma e lhe dê o merecido tratamento. Compensando as ingratidões e desdéns por você recebido nestas plagas, onde antes de serem reconhecidos no talento, alguns artistas tem que matar um leão por dia para ao menos sobreviver.<br>Uma respeitosa saudação daqueles que hoje vêm em você o paulista e brasileiro ilustre que aqui nasceu.<br><br>E-mail do Autor: [email protected]