Elenco: Álvaro Henrique Hass: subcontador da LARA CAMPOS e militar da reserva, Taketoshi Hayashida: Escriturário mais novo da LARA CAMPOS
Coadjuvantes: Pessoal Administrativo da LARA CAMPOS, Amigos militares do Sr. Álvaro
Época: anos 60
Como já tive oportunidade de comentar, a equipe masculina do setor administrativo, independente do grau hierárquico de cada um, era “supimpa” para aprontar “pegadonas”. Este texto relatará mais uma.
Taketoshi era um nisei muito ingênuo que tinha sido admitido na empresa e estava iniciando carreira. Estava completando 17 anos e assim, na época de se alistar no Exercito Nacional.
Assim, certo dia se chegou para o Sr. Álvaro e pediu para faltar no dia seguinte, pois precisava cuidar do seu alistamento.
No início seu pedido foi recusado propositalmente. O Sr. Álvaro alegou que ele não tinha tamanho (era realmente baixinho) para ser recrutado pelo exército e, sendo assim, não precisava se apresentar.
Nós, pobres colegas inocentes, entramos na conversa e concordamos de pronto com o Sr. Álvaro,, alguns opinavam ainda dizendo que ele estava mentindo e queria faltar para ir ao Cine Coral ver filmes de sexo explícito.
O japonês tinha pavio curto e começou a discutir e desafiar todo mundo. A discussão teve fim quando o Sr. Álvaro disse-lhe que podia ir, mas teria que trazer documentos originais que comprovassem seu alistamento.
No dia seguinte, com o japa ausente, foi bolada a nova malvadeza. O sr. Álvaro era da reserva das Forças Armadas, tinha amigos também da reserva que eram corretores de imóveis com escritório na Praça da Sé. Então, ligou para eles e pediu um favor especial, contou a história do japonês e disse que iria fazer com que ele se apresentasse no escritório da corretora onde deveria ser atendido por oficiais fardados e ali, depois de amedrontado, seria designado para vigiar de perto um anarquista e possível terrorista que trabalhava na mesma firma dele.
Tudo acertado, no ponto avançado partimos para nossas providências imediatas. Na época, os telegramas da ECT eram escritos em formulários especiais, que depois eram entregues no Correio Central e dali encaminhados para o destinatário. Preenchemos então um formulário, fechamos de forma idêntica aos telegramas normais, carimbamos no local certo com carimbo quase idêntico ao dos Correios, e dois dias depois entregamos o dito cujo na residência do Taketoshi usando uma estafeta particular, enquanto todos nós estávamos na firma juntamente com o japinha.
Dia seguinte à entrega do telegrama a vítima chega ao escritório com semblante preocupado, aguardou um momento em que o sr. Álvaro estava sozinho e muito reservadamente lhe mostrou o telegrama. A preocupação se justificava, estávamos nos anos negros da ditadura militar.
O Sr. Álvaro não se fez de rogado e nem se preocupou em manter segredo da situação comentada com o japonês e em poucos segundos todos nós tomávamos conhecimento do caso. O Taketoshi tinha sido convocado a comparecer numa agência secreta do exército.
Fizemos todo o esforço possível para que ele, mesmo assustado, atendesse à convocação, e ele atendeu.
Soubemos depois que ele lá chegando foi recebido por dois bruta-montes e depois de se apresentar e mostrar o telegrama, foi admitido em outra sala onde um “oficial do exército” lhe comunicou toda a situação, disse que o terrorista era um ex-militar de nome Álvaro Henrique Hass, e que ele estava sendo convocado para conseguir provas que incriminassem o indivíduo. Se cumprisse bem sua parte e ajudasse na captura desse mau elemento ele teria como prêmio a dispensa do serviço militar.
Chegando ao escritório, ele, indagado sobre a entrevista, mentiu que tinha sido chamado por engano e todos nós aceitamos a mentira sem discutir.
Nos quinze dias seguintes, o assunto que mais se discutia durante o expediente, além do futebol, era a situação política e a atuação do exército. O Sr. Álvaro levantava a voz veementemente para xingar o governo, os militares, as atividades governamentais e tudo que pudesse comprometê-lo junto aos olhos do Taketoshi e este, por sua vez, de forma obscura abria sua gaveta e anotava tudo no caderno que lhe haviam entregado, certo de estar amealhando provas incontestáveis.
Um dia, decidimos terminar a pantomima, no retorno do almoço o Sr. Álvaro entra acompanhado pelos 3 amigos. O Taketoshi, descendente de orientais, ficou mais amarelo ainda.
Disse o Sr. Álvaro: Quer dizer que você estava fazendo minha caveira seu japonês de uma figa?!!
O japa ficou menor do que já era… tentou dar uma desculpa, a voz não saiu e o choro deu sinal de que estava chegando.
Aí foi a gargalhada geral.
O mais difícil foi convencer a vítima de que tudo era uma farsa. Ele não admitia essa possibilidade.
Por fim, quando caiu na real e viu que nada era verdadeiro, num desabafo comedido e não pretendendo bater de frente com o chefe, virou-se para mim e me olhando furiosamente disse: Turco FDP você é que é culpado…
Quem levou a culpa fui eu e a minha fama… Mas valeu a brincadeira!
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