É triste, mano
Muito triste mesmo, mano
Ver aquela senhora ali
Sobre o corpo caído
Um corpo inanimado
No chão esticado
Em sangue banhado
Seu próprio sangue
Sem vida, baleado
Mais uma vítima
Uma vida ceifada
Da luta tão propalada
Vítima do trafico
Garoto novo
Da sua família roubado
Da sua mãe seqüestrado
Aquela senhora
Que ali agora chora
Não tem nada mais a fazer
Só vendo o menino
Seu sempre menino
Sangue do seu sangue
Morto ali no chão
Coberto de jornal
Reconhecer seu filho
Foi muito triste, mano
E agora não restou nada
Nenhum sonho restou
Restou só levar seu filho
O corpo dele
Pra algum lugar
Pra algum campo de paz
Pra poder o rapaz enterrar
De forma honrada
Pelo menos agora
Nessa hora de dor
Poder por ele orar
Que ela tenha essa chance
Pelo menos essa possibilidade
Cabeça erguida
Com toda dignidade
Um enterro de maneira digna
Pelo menos agora, mano
Ela poder isso fazer
Pelo seu menino
Ela que não pode muito
Nunca pôde
Apesar de muito lutar
Apesar de muito sonhar
Para o futuro dele
Contra essa onda toda
Essa força do mal
Que arrastou seu filho
Junto com muitos outros
Foram seduzidos
Foram iludidos
Por uma vida fácil
Dinheiro fácil
Uma ilusão de poder
De tudo poder ter
Uma vida sem sentido
Achando que nada tem valor
Caiu em sedução
Achando que ia se dar bem
E não bastou ver outros
Assim como ele
Terem seus sonhos roubados
Ceifados, aniquilados
Sem chance
Ele nunca acreditou
Com ele não aconteceria
Não com ele
Isso era pros outros
Otários, vacilões
Ele não
Ele era safo
Isso é o que achava
Sempre achou
E achava que só dessa forma
Podia ser alguém
Podia ser reconhecido
Pois no gueto
Você sabe, mano
Tudo continua igual
A mesma vida
A mesma servidão
A mesma condição
Nada mudou
Desde os tempos
Que seu tataravô
Serviu de preto de troca
Serviu de moeda em escambo
Serviu, serviu e serviu
A um sinhô
No gueto a vida é servir
E nada mudou
Servir a um sinhô obscuro
Que se submete a vida servil
Por um sub-emprego
Por uma sub-condição
Uma sub-existência
Só subsistindo
Que cê sabe, mano
Mano com a nossa cor
Passa despercebido na sociedade
Como se nada fosse
Como se nem existisse
Não é gente
Não tem a mínima chance
De crescer
De ser alguém
De ter alguma oportunidade
E dizem por aí
Que há mais de cem anos
A escravidão acabou
Acabou mano
Mas o que importa agora
Se aquela senhora chora
A morte do seu filho
Um dos nossos,
Um mano de cor igual
De carne e osso
Sangue do nosso
Mais um que se vai
Passando despercebido
Só sendo notícia no jornal
Engrossando mais as estatísticas
Do crime e da violência
E amanhã
Por ele mais ninguém vai chorar
Só aquela pobre senhora
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