Mãe por controle remoto

Pois é, em um determinado momento, nós, mulheres, fomos para o mercado de trabalho de maneira maciça. E a grande angústia surgiu: como continuar orientando as crianças que ficaram em casa – sem o papai e a mamãe – e aos cuidados de uma auxiliar boazinha, mas não qualificada? Não era nada fácil, não…
 
Morando na Barra Funda (Rua Solimões) e trabalhando no Brás (minha escola ficava no começo da Rua Oriente), a dificuldade de acesso era bem grande. Reclama-se muito hoje, mas na época (décadas de 60 e 70), o transporte público era muito pior. O ônibus do qual eu dependia era o “Largo da Concórdia” que saia da garagem na Rua Garibaldi – uma linha que contava com os ônibus consertados que tinham que amaciar o motor. Geralmente, apenas dois por dia.
 
Levava horas para ir e voltar e a minha carga horária era de 40 aulas semanais. Como mãe zelosa e preocupada com a alimentação, deixava o cardápio para a semana todo determinado e de acordo com as compras feitas por mim.
 
Um dia, as aulas foram suspensas – não me lembro do motivo – e eu chego para o almoço. A Odete põe na mesa: salada de agrião, purê de batatas, carne moída com molho e batatas fritas.
 
Surpresa com essa combinação, reclamo e ela diz: “Ora, foi o que a senhora escreveu para fazer hoje!”. Imediatamente vou consultar a listinha afixada à geladeira e lá constato que alguém, imitando a minha letra, acrescentou “batatas fritas” a todos os dias da semana.
 
Travessura do Flávio… Bem, que eu estava reparando que o consumo de batatas estava aumentando sempre, mas não podia imaginar a manobra.
 
Hoje, a culpa diminuiu um pouco porque acho que as crianças aprenderam a se defender – com criatividade – na minha ausência.