Loucos há muito tempo

Amo esta cidade. São Paulo é o lugar em que vivo há 61 anos. A esta cidade devo tudo o que eu tenho hoje, tudo o que sou e o que fui. Mas dentro dela, meu coração bate na Parada Inglesa, o bairro onde nasci, cresci e tornei-me homem. É dele as lembranças que tento compartilhar com quem lê as minhas histórias, que me deixam feliz quando as vejo publicadas.

É na Parada que está a igreja do Padre Júlio (saudoso), a padaria que foi do Adriano, a farmácia do Paulo Japonês, o cheiro da Dama da Noite daquela casa que ficava entre as ruas Paulo Avelar e Sílvio Rondini.

Esta história é também sobre a Parada, mas não rememora lugares, dores, sabores ou odores, fala de uma pessoa.

Desde pequeno eu o via por lá. Quando era pequeno eu tinha medo dele, depois fui crescendo, o medo foi se esvaindo e eu fui me acostumando a vê-lo como parte integrante do meu bairro. Era um sujeito enorme, grandão, devia ter uns 15 anos a mais do que eu. Seu nome era João, também conhecido por João “Muca” ou João “Sonho”, por causa de uma severa deficiência mental, que ficava ainda mais acentuada quando alguns imbecis davam-lhe bebida alcoólica que, interagindo com os fortes remédios que ele tomava, deixavam o João em total delírio. Mas ainda assim ele era inofensivo, nós fazíamos mais mal a ele que ele a nós.

Quando, por força da perseguição política, tive de sumir do meu bairro, fiquei um tempão sem voltar lá e quando voltei, no início de 1980, reencontrei o João, firme e forte como uma rocha. Em um belo dia, quando ele estava em seu estado mais normal possível, no portão da minha casa fiquei conversando com ele. Só então descobri que,assim como eu o João era corintiano e ele me surpreendeu.

O homem era uma enciclopédia ambulante e viva do Corinthians. Sabia tudo sobre o clube, de 1910 até aqueles dias. Os principais jogadores que por lá passaram, os times que tiveram mais sucesso, os títulos e o nome dos dirigentes mais famosos, porque o clube era conhecido por campeão dos centenários, quando ganhou a Taça dos Invictos e por aí vai.

Não sei mais do João, talvez nem esteja mais entre nós, infelizmente não moro mais na Parada, mas quando ouço hoje a torcida do Corinthians gritando que "aqui tem um bando de loucos", lembro-me do João e fico pensando que loucos somos desde muito tempo. Está (ou estava) ai o João que não me deixa mentir.

E-mail: [email protected]