Olhem só do que fui me lembrar!! Pessoal, juro que eu era bem criança. Esta lembrança me foi trazida à memória porque meu genro não se conformava com o que sua mãe lhe contou e ele veio confirmar comigo. Achava simplesmente impossível que isto pudesse ter acontecido!
"Verdade que o leiteiro deixava litro de leite na porta da casa e ninguém roubava? Se nem jornal hoje se pode deixar! Não acredito!"
Pois pode acreditar. É a mais pura verdade. E mais, deixava também o pão! Filão de pão. Ainda não havia pãozinho francês.
Havia famílias grandes que compravam mais de um litro e assim existiam cestinhas de metal para dois, quatro e seis litros. O pão era deixado embrulhado nos famosos "papel de pão" ou saquinhos de papel pardo que depois eram usados para escorrer a gordura das frituras caseiras. Não, ninguém pegava não. Por outro lado havia os guardas noturnos, com seus uniformes azul-marinho de casemira, camisa branca e gravata também azul marinho, contratados pela Prefeitura, que faziam a ronda das ruas do bairro e apitavam de tempos em tempos. Não andavam armados e podiam auxiliar os moradores quando estes precisavam. O pagamento? No fim do mês, à vista da famosa e já aqui descrita "caderneta" ou "cardeneta".
Lembro-me também do homem das cabras. Ele percorria as ruas levando 7 ou 8 cabras com pequenos sinos nos pescoços, o que alvoroçava a criançada. Ele vendia leite, que tirava da cabra na hora, nos portões das casas, em copos ou em garrafas. Eu aguardava com ansiedade o toque dos sininhos porque então já sabia que estavam perto de casa. Corria para o portão com minha mãe que me comprava um copo de leite morninho, da cabra preta.
Assim era. À noite, após o jantar, era hora de colocar o litro lavado no portão, que durante a madrugada seria trocado por outro, cheio. Bons tempos em que o que mais tínhamos eram os ladrões de galinha. Afora os políticos, claro, e os corruptos em geral, pois estes sempre existiram, desde o descobrimento do Brasil.
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