Literatura paulista

No fim dos anos 50, tendo terminado o meu curso de Secretariado na Escola Técnica de Comercio Álvares Penteado, apesar de meu desejo de prosseguir com meus estudos circunstâncias familiares alheias a minha vontade me conduziram a buscar um emprego onde pudesse exercer a nova profissão, ainda naquela época, vista com um certo preconceito principalmente pela família de meu pai que assim como ele achava que eu deveria: ou continuar estudando ou na pior das hipóteses, seguir a carreira do Magistério, já que uma professora sempre seria mais bem vista na sociedade em que vivíamos, mas rebelde como todo jovem, já que não me foi possível continuar os meus estudos, tampouco aceitei a ideia de lecionar, o que me parecia o trabalho mais desinteressante do mundo e assim fui admitida numa Empresa que era proprietária de uma cadeia de lojas de departamentos e mais tarde me transferi para uma firma canadense muito conhecida que fornecia à São Paulo a energia elétrica que iluminava as nossas casas.
Lá conheci um ambiente de trabalho totalmente diferente do anterior que era mais livre e democrático, e passei a vivenciar as normas e a disciplina de uma Empresa estrangeira onde consegui conquistar o respeito de meus colegas e chefes e logo passei a me sentir numa grande família. Bons tempos àqueles onde os funcionários eram tratados com humanidade e educação e quase não se viam exemplos dessa competitividade gananciosa que infelizmente se tornou fato comum nos dias de hoje, quando as pessoas são descartadas e usadas como objetos. Mas quando lembro dos meus dias de funcionária dessa Empresa, um fato que talvez possa parecer banal a quem não gosta de ler, mas que para mim representou como que um presente inesperado, foi o encontro, na mesa que havia sido ocupada por minha antecessora, de um livro de uma escritora paulista de nome Ondina Ferreira, que hoje percebo, foi certamente uma das primeiras autoras a falar sobre a condição da mulher naquela época em que a repressão e os preconceitos ainda imperavam em nossa Sociedade. Fiquei encantada com o livro e com todos os outros que consegui achar não só em livrarias, mas em sebos, já que suas edições haviam se esgotado.
Hoje em dia me pergunto por que essa grande escritora não é mais lembrada e muito menos homenageada já que representou mais do que ninguém o talento da mulher paulista?
A TV Cultura chegou a exibir a adaptação de um de seus livros e creio que obras como Casa de Pedra, Navio Ancorado, Nem rebeldes nem fieis, E é logo noite, Vento de Esperança e tantos outros, assim como contribuíram, para ampliar a minha visão do mundo e da posição da mulher dentro dele fizeram com que essa autora marcasse de forma indelével sua presença no mundo literário de São Paulo

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