Liló, a louca

Tinha quinze anos quando conheci Liló, uma espanholinha de dezessete. Era bonita, alegre e vivaz, sempre rindo, sempre cercada de rapazes que se encantavam com tanta alegria e beleza. Ela dançava tocando castanholas e a turma ficava em volta batendo palmas.

Era de família pobre, filha única, morava no Cambuci num apartamento pequenino, com a mãe, dona de casa, e o pai, trabalhador braçal. Família feliz que gostava de reunir amigos e parentes para comer garbanzo aos domingos e que sempre nos convidava para tomar um cafezinho com eles.

Liló se apaixonou por um dos rapazes da nossa turma, um loiro alto e bonitão, e com ele se casou. Era ainda bem novinha. Tiveram três filhos, que ela trazia pela rua de mãos dadas quando pequenos, todos loiros, bonitos, vestidos com esmero. Liló fazia lindos trabalhos manuais e sua casa estava repleta das belezas que ela produzia, juntamente com os lindos filhos que havia produzido. Com o tempo, ficaram ricos, compraram uma casa de campo num lugar perfeito e um apartamento na cidade, no Morumbi.

Os anos se passaram e nunca mais vi a Liló.

Um dia, encontrando um primo em São Paulo, ele me disse que havia comprado uma casa de campo e que era vizinho da Liló. Ela se mudara permanentemente para a casa de campo e vendera o apartamento. Fui visitar meu primo e aproveitei para renovar a amizade com a Liló, que me tratou muito bem, até me presenteando com seus lindos objetos artesanais.

Passaram-se mais uns anos e voltei a visitar o meu primo. Não posso descrever o susto que tomei ao chegar, pois a Liló havia feito uma verdadeira fortaleza à volta de sua casa, e acima do muro alto podíamos ver uma casa cujas paredes necessitavam de conserto e uma pintura; aqui e ali ela reforçara a segurança com pedaços de madeira e zinco. Algumas janelas já não se abriam, mas estavam permanentemente fechadas com taboas. Cachorros ferozes corriam livres pela grama alta e Liló já não recebia ninguém. Seu marido se afastara também, devido aos gritos e esquisitices de Liló, os filhos já haviam partido para suas vidas. Liló estava só e Liló estava louca.

Hoje ela é conhecida como a louca do castelo, devido à maneira como se enclausurou em sua casa, que fora tão linda. Sai somente à noite, bem tarde, vestindo roupas estranhas, chamando os cachorros aos berros. Ouvem-se também seus gritos na calada da noite, batendo nas paredes, provocando medo nas crianças que moram nas redondezas. Nada sobrou da menina bonita de cabelos compridos que fazia picnic com a gente no Parque do Ibirapuera, que participava das festas de Natal na igreja no Cambuci e dançava a tarantela no meio da roda dos rapazes.

Minha pobre amiga.

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