Lembranças do IBGE

Participei de vários censos demográficos e econômicos. Esse trabalho é uma lição de vida.

Na zona sul de São Paulo, havia dezenas de favelas (o IBGE considerava "favela" os aglomerados de mais de cinqüenta barracos). Como identificá-los entre aquelas vielas? Saíamos com um "spray" numerando-os. Por alguns moradores éramos recebidos com desconfiança. Por outros, com extrema gentileza. Quantos cafés tive que tomar!!!

Chegávamos cedo. Víamos os moradores em fila para poder usar uma única torneira do aglomerado. Aquelas mocinhas bem arrumadas preparando-se para o trabalho. Com aquela precariedade, como podiam se apresentar decentemente? Nos "botecos", os freqüentadores nos mediam de cima a baixo. Tínhamos que preencher os formulários. Em cada dez, nove eram simples, com poucas perguntas; um era longo com detalhes dos moradores.

Visitávamos não só favelas, mas também bairros organizados. Enfim, todas as residências, sem deixar para trás uma só.

No censo econômico, visitávamos o comércio, a indústria e os prestadores de serviço. Aí é que a coisa pegava. Muitos achavam que éramos fiscais querendo investigar seus negócios.

Um local especial foi o CEASA, entreposto que abastecia a cidade e região. Para descrever o que passávamos seriam necessárias várias laudas. Um exemplo era o de termos que ir de madrugada (uma, duas horas) para entrevistar o pessoal dos peixes. Logo a seguir, o setor das flores. Aproveitávamos para tomar a famosa sopa de cebola do CEASA (hoje CEAGESP). Cada box era considerado uma empresa.

Bem, resumindo: aquilo é uma cidade dentro da cidade. Voltarei ao assunto oportunamente.

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