Lembranças de Vila Nova Conceição

Por detrás das torres soberbas dos edifícios da grande cidade, o sol na altura do poente já desmaiado, não tarda a morrer no horizonte. Recrescem as primeiras sombras do fim da tarde. Agora há na terra uma quietude brusca no crepúsculo.

Uma última lamina de sol corta o vale folhudo lá em baixo, na Rua da Cachoeira. Silêncio. Do fundo do vale e daqui de cima no alto na Rua Afonso Brás, olhei para o céu e vi a primeira estrelinha, como uma bolinha de gelo olhando para mim, e pensei naquela hora que parou para ver a tarde murchar.

Aqui respiro o lusco fusco da noite, pingado de luzes nas janelas sobre janelas e sobre outras janelas dos edifícios da rua. Uma luz pequena, numa fachada de um prédio baixo vai riscando verticalmente, descendo os andares parecendo um balão caindo. Paz.

Nenhum estremecimento nas folhas finas e verdes dos eucaliptos nas ruas desertas no entorno do Parque Ibirapuera. Agora me transporto em pensamentos olhando para o alto e no meio dos grandes prédios, pensei que ali ainda existisse o espectro do clarão de dois círculos concêntricos, reflexos simétricos, na cor azul celeste no meio da torre de ferro dos transmissores da Rádio Nove de Julho.

Olhei ainda, mais adiante, o largo de Nossa Senhora Aparecida e vi entre a torre da igreja e um pedaço de céu, onde lá havia um anúncio vermelho e branco de um pombo, na claridade refletida no espaço sobre a noite de Moema. Parece-me ainda ouvir ao longe, o ladrar quebrado e precipitado de cães. Alguém acendeu uma fogueira lá em baixo, no mundo das trevas e um fogo alto e rápido lambeu a pequena noite no vale.

Uma grossa nuvem de mosquitos cirandou toda acesa, sobre uma pinguela estragada numa ponte abaulada, velha, desgastada pelo tempo e pelo uso, no córrego Uberaba. Senti passar sob ela, um pouco do caminho da minha mocidade. Lembrei-me da Rua Barra do Peixe e da Araguari, no fundo do vale espremido e do velho que ali morava, numa casa a beira do córrego com uma enxada aos ombros, o cavador, retirando cascalho e areia do fundo, nas beiradas das curvas do brejo, para vender na outra ponta da cidade.

Olhei a noite que veio. Vinda numa fuligem fosca de crepe, que se esgarçou toda no ar baixo e pesado. Noite de hulha, noite preta e pobre sobre o vale folhudo de Vila Nova Conceição. E no fundo daquele côncavo, uma luz leitosa num globo branco fosco na caliça escura da fachada de uma casa. Atrás de um portão entrelaçado de ferro, separado da rua por um jardim onde havia uma porta entreaberta sobre um desenho gótico, no parapeito da janela.

No fundo da sala havia uma escada clara, e sob um sofá azul tu lá costumavas sentar. Tinha na expressão do rosto pálido um suave traço. Os cabelos soltos revoltos desciam em ondas esparsas sobre as espáduas nuas. Os olhos cor de jade luziam ao reflexo da tez morena. Ela ainda estava naquela idade inquieta e duvidosa, entre aberto o botão, entrefechada rosa. Era um pouco de menina e um pouco de mulher. Às vezes se mostrava recatada, outra estouvada. Coisas de criança e modos de mocinha.

Ela atravessava rápido, e não raro era o instante que não lançasse os olhos para o espelho na parede da sala. É difícil imaginar que ao deitar não lesse algumas folhas dispersas de um livro ou um romance qualquer. Alegrava-se ouvindo no compasso a orquestra e o coro, as músicas do Ray Coniff. Já vai longe o tempo em que te conheci na noite que arrastava o sonho e tu vertia um último pranto por esse vasto vale de Vila Nova.

Hoje seria sonho ou evocação a tua aparição? E procurei aqui do alto entre espaços, aquela mesma luzinha de outrora no plano horizontal da rua e de tua casa, era um tempo onde quase tudo podia. Tu andavas descalças pelas calçadas nuas da Cotovia nas tardes cálidas da primavera. Tomava chuva ao caminhar pelas ruas serenas nas manhãs tímidas e lavadas naqueles tempos de mocinha.

E a recordação dos belos anos dourados, traz-me a memória a tua presença, não importa o quanto tempo passou. Seu rosto era jovem, seu talhe elegante, seus lábios da cor da rosa formosa, a fala macia, e as tranças crespas de finos cabelos feitos de novelos revoltos. Os pés eram de criança, a cintura fina, a boca bem feita, olhos estirados de malaquita. Se eles eram sinceros se falavam verdades ou diziam mentiras, eu nunca soube.

Quando um dia me fez um convite para o baile da União, ao som de Ray Coniff, com ti dançando na dança ligeira que cansa qual silfo voando, e eu um pirralho ainda, nos dezoito anos de idade. Que noite, que baile, seu hálito fresco soprava-me as faces no louco dançar, as falas sentidas que os lábios falavam não devo, não posso contar. E hoje, aqui do alto da mesma rua, sob o olhar úmido desta noite de opala, vejo o passado distante lá no fundo daquele vale folhudo, sobre a antiga ponte abaulada, muito estragada, na pinguela de água furtada do Córrego Uberaba, que hoje não mais existe.

Noite em Vila Nova Conceição em São Paulo. A outra, a grande noite, essa já desceu toda sob a forma de uma bruma que escorre ladeira abaixo, e vai deixando no fundo do vale os seus rastros paralelos, pálidos, pensativos, criadores de sombras, inventores da noite. Agora volto o olhar curioso para o céu e vendo a mesma primeira estrelinha como uma bolinha de gelo espetada olhando para mim, vejo-a nela, a lira divina de tua alma nas tênues neblinas da madrugada, com saudades, as lembranças de ti e de Vila Nova Conceição.

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