Como neta, filha e sobrinha de santamarense, muitas histórias ouvi e tenho ouvido a respeito do outrora povoado, depois município e hoje bairro de Santo Amaro.<br><br>Já reportei que quando criança fui embalada não com peripécias dos contos de fadas, mas dos contos reais e floreados gostosamente por uma contadeira de história especial, minha mãe, Neide Carlos de Oliveira, filha caçula do Chico Turco e Dna. Belarmina. A conversa geralmente começava entre ela e meu pai e à medida em que ia sentindo a plateia se formar com os filhos a sua volta, empolgava e o parceiro se tornava mero ouvinte e apoio, caso a memória falha-se na identificação de algum personagem, ou para saber que fim levou fulano, ou se o mesmo ainda estava vivo. Meu pai, acredito também, se embalava pelos casos da parceira, pois pouco interrompia, a não ser para confirmar ou completar resumidamente o fato por ela solicitado.<br><br>Às vezes o caso se passava no Jardim da Praça Floriano Peixoto, outra vez próximo ao Mercadão. A Padaria Goa, assim como a Treze, também faziam pano de fundo para as histórias.<br><br>A esquina da Manoel Borba com a Avenida Adolfo Pinheiros era mencionada, já que ali existia o armazém de seu irmão David, e ela era gerente geral. O local foi estratégico para o início do "flerte" com meu pai. Este deixava o caminhãozinho, um Ford T, descarregando o carvão, no posto ao lado. Encomenda preciosa da época de guerra. Atravessava a rua em direção a Padaria Goa, em busca de um café com leite esperto junto com um quentinho pão com manteiga.<br><br>Minha mãe dizia que ao vê-lo logo arrumava um jeito de se posicionar em uma das portas altas do seu armazém. Nessa hora meu pai timidamente completava que eram aqueles olhos azuis e cinturinha de pilão que o faziam sempre estacionar no mesmo lugar.<br><br>A essa altura, minha mãe, já mais segura, continuava suas memórias. Horas passavam e durante anos foram repetidas, sem nunca deixar de terem como ouvintes seus filhos. Confesso que para mim sempre adquiria colorido diferente, mesmo sabendo o final. Hoje reconheço que valeram cada palavra ouvida formando textos que agora divido com vocês.<br><br>e-mail da autora: [email protected]