Lembranças de um Natal em São Paulo

Todos os anos, quando vai se aproximando o mês de dezembro e, aos poucos, as cores e sons do Natal começam a surgir, surgem também muitas lembranças. São momentos que se perderam no tempo, pessoas que passaram por nossas vidas, pessoas queridas que deixaram saudades e entre tantas boas lembranças, surge uma especial.<br>Era dia 24 de dezembro de qualquer ano na década de 70, meu pai, como todo bom brasileiro, deixou as compras de Natal para a última hora. Assim, como filha mais velha, acompanhei-o e saímos de casa para comprar presentes para toda a família.<br>Era uma típica tarde de dezembro. A chuva fina molhava as ruas e o som dos pneus no asfalto soava como uma música nos ouvidos.<br>Naquela época, não tínhamos carro e assim, fomos de ônibus. Pela janela do ônibus, via as ruas cheias de pessoas apressadas com sacolas no entra e sai das lojas enfeitadas. Músicas natalinas por toda parte. Que delícia aquele clima de Natal, o espírito de Natal nos rostos e nos olhares que passavam. Pessoas buscavam algo para demonstrar seu afeto, compartilhar um momento de alegria.<br>O destino era o Mappin, lá nós encontraríamos todos os presentes, pois lá havia presentes para todos os gostos. Descemos na rua ao lado, e fomos andando e acompanhando as vitrines enfeitadas. Chegamos e nos deparamos com uma quantidade enorme de gente que queria comprar e… pagar e… pegar os presentes e… sair da loja. Parece simples se não considerarmos que se tratava de centenas e até milhares de pessoas que iriam fazer isso naquele "pequeno" prédio.<br>Era um empurra-empurra, pisão no pé, gente suada por causa do calor, molhada por causa da chuva, elevadores com filas enormes. Meu pai resolveu:<br>- Vamos pela escada.<br>Bom, era uma fila que subia e outra que descia pelas estreitas escadas. Nunca levei tanta sacola na cara. Parávamos andar por andar para escolher, comprar, pagar e retirar os pacotes. Foram presentes para as crianças (meus irmãos), sobrinhos, avós, mãe, tias e tios. Meu pai curtia muito aquilo tudo, eu achava "meio" cansativo, mas alguém precisava ajudar com as sacolas, assim fomos até às 20:00, quando conseguimos sair da loja, e aí nos dirigimos ao ponto de ônibus (nós e… as sacolas), de repente uma poça de água, um ônibus com pressa e um banho gelado para refrescar. Os presentes? Molhados, é claro!<br>Entramos no ônibus com “certa dificuldade” e felizmente havia bancos livres para colocarmos os presentes. Depois de muito trânsito, chegamos em casa já secos e cansados. Todos já estavam arrumados e prontos para a Missa do Galo e depois viriam a festa e os presentes. A mesa estava linda, com muitos enfeites, o cheiro de peru assando misturado ao cheiro de panetone pela casa. Os presentes ainda meio molhados e com laços meio caídos ainda eram esperados por todos, colocamos todos os presentes ao pé de nossa árvore e fomos tomar outro banho (só que com água limpa, vinda do chuveiro e com muito sabonete) e nos arrumar também.<br>Fomos todos à missa e depois festejamos como se fosse o nosso último Natal. Aquela reunião foi especial, pois quase toda a família estava presente. Havia conversa, alegria, brincadeiras, histórias para contar e acima de tudo, muita união. Na hora da ceia tocou a campainha e um velho senhor pedia um prato de comida. Meu pai o convidou para entrar. Era o Pelé, um solitário e alegre catador de ferro velho conhecido na nossa rua. Ele não quis entrar, embora meu pai insistisse. Minha mãe fez um grande e farto prato e demos um daqueles presentes que compramos (era uma camisa que meu pai havia comprado para um tio que não poderia ir aquela noite) e o Pelé foi embora muito feliz.<br>Tempos depois, víamos o Pelé usando aquela camisa em dias de festa e domingos.<br>Que este Natal seja especial e que o espírito de amor e união esteja presente em cada ponto desta cidade.<br>Que as luzes que brilham no Ibirapuera e em tantos outros pontos desta cidade iluminem cada coração.<br><br>e-mail da autora: [email protected]