Nasci em Grijó de Parada, numa maravilhosa aldeia na cidade de Bragança, no norte de Portugal. Minha família imigrou para o Brasil devido à falta de trabalho e as dificuldades financeiras nas aldeias da região. Meu pai veio sozinho no ano de 1957 e vendo, que a situação era muito melhor que em Portugal, mandou que embarcássemos para o Brasil, mais precisamente para a Vila Beatriz, na Rua Colonização, se não me engano no nº 127.
Era um cortiço com algumas casas no mesmo terreno, de dois cômodos, um quarto, cozinha e um banheiro no quintal para uso comunitário. Alguns meses depois mudamos para a Rua Arapiraca, nº 26, esquina com a Rua Colonização, época em que as ruas não eram asfaltadas e sem saneamento básico.
Quando chovia, a água vinha das ruas Purpurina e Mourato Coelho, na Vila Madalena, que desaguavam no pequeno córrego paralelo às casas, cortava a Rua Arapiraca e seguia pelo meio da Rua Colonização, e assim ia abrindo uma vala na rua.
Se não me engano, até o ano de 1963, as Ruas do Futuro (hoje Natingui), Colonização, Arapiraca, Turi, Delfina e outras não tinham esgoto. Todas as casas tinham uma fossa, e o banheiro do cortiço era como qualquer outro. A diferença é que você tinha que aguardar a sua vez na fila e isso gerava algumas discussões. A água não era encanada e as casas tinham um poço. No local em que eu morava na Rua Arapiraca havia uma bomba que distribuía água para as três casas dentro do mesmo quintal, e a coleta do lixo era feita por carroças puxadas por cavalos.
Tinha um enorme terreno que pertencia ao IAPC, onde ficavam os campos do Leão do Morro F.C, da Vila Beatriz, Esporte Clube 1º de Maio e 7 de Setembro, ambos da Vila Madalena, que existiram até os primeiros meses do ano de 1969. E ali no final da Rua Mourato Coelho até a Rua Natingui, antiga Rua do Futuro, teve início a construção do BNH – Conjunto Habitacional Natingui, acabando com o espetáculo de futebol que os times nos proporcionavam e também nos tirando a diversão com o próprio futebol que praticávamos e jogávamos.
Taco era uma brincadeira muito parecida com o basebol; o Leão do Morro foi muito famoso e temido na várzea paulistana, foi o campeão varzeano invicto da Federação Paulista de Futebol, setor de Pinheiros, no ano de 1959. Também foi campeão do torneio dos clubes unidos do Jornal Última Hora, no ano de 1962, ganhando a final do Botafogo do Carrão e vice-campeão do mesmo torneio no ano de 1964, contra o mesmo Botafogo. Ainda foi campeão do campeonato regional de Pinheiros em 1969 no campo do 1º de Maio, final que foi transmitida pela iniciante Rede Globo de Televisão.
Joguei no dente de leite e algumas partidas no time principal do Leão, e quando os campos acabaram, jogamos algumas partidas em campos dos adversários até o time não ter mais condições financeiras para continuar e encerrar a sua vitoriosa história nos campos da várzea paulistana.
Também brincávamos de bolinha de gude, pião, pular corda, pega pega. Quando as ruas foram asfaltadas, vieram os carrinhos de rolimã e ficávamos na rua até altas horas da noite. Não havia muros altos ou grandes portões, tínhamos total liberdade; eu e meus eternos amigos Ivo, Flávio, Enio, Pedro, Vitor, Telma, Cilene, Alfredinho, Isabel, Massa, Regina, Reis, Chiquinho, Caca, Cristina, Clarice, Cacilda, Fernando, William, Sueli, Edson.
As pessoas eram mais bondosas, tinham mais amor no coração, todos se cumprimentavam, os vizinhos eram mais que amigos, todos participávamos juntos de festas juninas espalhadas pela Vila Beatriz que eram realizadas pelas ruas aqui no bairro. Não eram festas grandes como as de hoje, as pessoas da rua se reuniam em volta de uma fogueira, cada um trazia um pouco de comida típica com muito quentão e soltava-se muitos balões. Praticamente todos iam juntos acompanhar a procissão católica da Igreja de Nossa Senhora Aparecida pelas ruas da Vila Beatriz, cada um com uma vela nas mãos.
As casas, na maioria, eram em terrenos compridos e ficavam nos fundos. Na frente havia árvores frutíferas e pequenas hortas, algumas casas eram em terrenos maiores e tinham criação de galinhas e porcos que ajudavam no sustento da família.
O comércio era bem diferente dos dias de hoje. As compras de alimentação, vestuário e calçados eram comprados na feira na Rua do Governador, hoje Rua Padre Arthur Simonsi. Não havia supermercados, tínhamos bar, mercearias como a do senhor Rubens ou do Zé da Vó, que vendiam todo tipo de mantimentos. Tinha a loja da Dona Gilda, a Barbearia Estrela do Sr. Zico e seu filho Álvaro e o amigo Pedrinho, o Bar Copa do Mundo, o Bar do Geocondo, a Padaria da Dona Maria.
No ano 1960 e 1961 estudei o 1º e 2º ano numa escolinha de madeira que não me lembro o nome, mas ficava onde hoje é a Praça Fiorante Salomão, na esquina da Rua Arthur Somensi com a Rua Isabel de Castela. Depois, com o fechamento da mesma fui para o Brasílio Machado, na Vila Madalena.
Grandes memórias, grandes lembranças e muitas saudades da minha querida Vila Beatriz.