Quando meus filhos eram pequenos, íamos sempre à casa dos meus sogros, no prédio 22 do IAPI – Cambuci. Havia muitas crianças no prédio e, entre eles, um se destacava: era o Toninho. Era magrinho, franzino, mas danado como ele só! Certa vez, uma vizinha veio nos avisar que as crianças estavam em uma das entradas do prédio, possivelmente vendo algo que não deviam. Meu marido e eu fomos lá para conferir e vimos um grupo de quase dez crianças, a maioria em estado de choque, com os olhos vidrados e carinhas de que não estavam entendendo nada do que estavam vendo.
O Igor pediu para olhar a revista que o Toninho estava folheando e aí entendeu o olhar das crianças. O garoto havia pegado a tal revista do tio dele e achou que seria legal mostrá-la às outras crianças. Era uma revista sueca, muito, mas muito apimentada mesmo! As imagens chocaram tanto as crianças que várias delas perguntaram aos pais o porquê daquilo. Foi difícil explicar aos nossos filhos que tudo aquilo não era natural, normal. Eu não cheguei a ver a famigerada publicação, pois foi entregue imediatamente ao pai do garoto.
A gente normalmente toma cuidado com o que entra em nossa casa, seleciona livros, músicas e filmes para tentar dar uma direção melhor aos nossos filhos e eis que, sem a gente esperar, eles tomam contato com um outro mundo para o qual não estavam preparados. Sabemos que não devemos e não conseguimos tirar todas as pedras do caminho das nossas crianças, mas há certas coisas que consideramos que não têm necessidade de saber cedo demais.
Em casa, sempre fomos abertos e até estimulávamos o diálogo e reforçávamos que tinham toda a liberdade de nos perguntar quaisquer coisas; algo que algum amigo tenha falado e eles não tivessem entendido, etc. Explicávamos que era muito melhor perguntarem para nós porque, se não soubéssemos a resposta, com certeza iríamos procurar saber para que recebessem a informação correta. Normalmente eles perguntavam muitas coisas, acho que não tudo (não sou tão ingênua!), mas sabiam que seríamos honestos com eles e que as coisas seriam esclarecidas de acordo com a sua capacidade de compreensão.
Esse garoto, o Toninho, costumava contar estórias de terror para a molecadinha e exagerava nas cores e no tom para ver suas carinhas assustadas e depois morria de rir! Até que um dia, após brigar com uma de suas irmãs, ela, com raiva, disse a todos que ele, após contar aquelas estórias horripilantes – a loira do banheiro era uma delas – ficava ele próprio com tanto medo que ia se refugiar na cama dos pais. Essas coisas aconteceram há mais de duas décadas, mas parece que não faz tanto tempo assim…
E-mail: [email protected]