Jardim Grimaldi tem saudades de Filhinho

Aqueles que moram no Jardim Grimaldi, região do Sapopemba, há mais de 25 anos, jamais irão esquecer do Filhinho, rapazinho simpático que morou na Rua Dona Carmela, no número 25, no período de 1970 a 1986, e que marcou época na Comunidade.

Quando chegou ao bairro vindo do Olaria em Vila Alpina, ainda era tímido e não conseguia se enturmar com o pessoal, mas logo foi descobrindo as pessoas e fazendo grandes amizades.

Ele adorava traduzir músicas internacionais contando uma história cheia de humor que vinha da sua imaginação. Escolhia a música, colocava no aparelho de som e com o gravador ao lado ia ouvindo a canção e traduzindo da sua maneira, utilizando os nomes das pessoas que ele conhecia, era sempre uma história romântica entre um amigo e amiga, de sua relação de amizades. Muitas dessas gravações acabaram em namoro, pois ele criava um enredo entre as duas pessoas, em que um se declarava para o outro ao som da música, e depois mostrava a fita para ambos. Como sua tradução era bem feita e romântica, acabava envolvendo as pessoas.

Gostava de poesia, de ler, escrever, adorava futebol e samba. Conheceu um tal de Cidão, que morava na Rua Naciosseno Gomes Barbosa, e juntos fundaram o Corintinha do Grimaldi e, posteriormente, o Ideal Gás, que ganharam dezenas de campeonatos e ganharam fama na várzea. Filhinho era dinâmico, escrevia artigos em páginas de futebol, organizava torneios, festivais e era muito conhecido e querido no bairro.

Convidaram ele para fazer parte de uma ala de compositores de uma escola de samba chamada de Raízes do Grimaldi, e, no primeiro ano, seu samba enredo que falava do cometa Halley foi o escolhido para ir pra avenida, logo depois, também convidado, foi para a Unidos de São Lucas e criou o primeiro samba da escola, que homenageava Vinícius de Moraes, que acabara de falecer. Foi também um dos participantes do surgimento do bloco Café com Leite, que hoje se chama Combinados de Sapopemba, cujo presidente e colega de infância é o Sr. Bel Calado.

Filhinho marcou muito em sua duradoura passagem pelo Grimaldi, e como morava de aluguel acabou indo para a Cidade Tiradentes, onde vive até hoje.

Dos seus amiguinhos de infância, poucos são os que sobreviveram, a maioria se envolveu com o mundo das drogas e teve fim trágico. Ele, que sempre soube separar as coisas e era amigo de todo mundo, escolheu um caminho diferente e continua em plena atividade. Hoje, já com família constituída, trabalha em um grande hospital de São Paulo e continua escrevendo sambas enredos cada vez melhores e até possui um site.

Tem uma música do Filhinho que retrata a Rua Dona Carmela que ele conheceu, e a mesma vinte anos depois, quando já estava degradada. Ele comentava que nessa rua já não se podia viver em paz, eram muitos jovens envolvidos com drogas e muitas mulheres casadas traindo os maridos.

Era assim…

Ó Rua Dona Carmela
Que bonito que tu era
Quando tudo era paz
Suas casas coloridas
Que te davam tanta vida
Eu não esqueço jamais…
O seu povo e seus segredos
Que viviam sem medo
E se amavam demais
Mais o tempo foi ligeiro
E hoje lá só tem
Prostituta e fumeiro.

Essa sátira foi feita em 1982, quando houve uma grande degradação de acontecimentos na rua.

Filhinho adotou pra sempre o nome do bairro e hoje é conhecido por milhares de pessoas como Filhinho do Grimaldi.

Que saudade de você, cara, estou com sessenta anos, mas nunca me esqueci da sua imagem simpática e que sempre de alguma forma conseguia resolver o problema de alguém que se encontrava em apuros.

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